Passo a passo

A identificação precoce e o diagnóstico rápido são essenciais para se evitar a transmissão e fornecer cuidados de suporte no momento oportuno. Tenha um alto índice de suspeita clínica para COVID-19 em todos os pacientes que apresentarem febre e/ou doença respiratória aguda; no entanto, esteja ciente de que alguns pacientes podem não apresentar sinais ou sintomas de uma doença respiratória febril.

Fluxos de assistência à COVID-19 devem ser estabelecidos nos níveis local, regional e nacional para as pessoas com suspeita ou confirmação de COVID-19. Rastreie os pacientes no primeiro ponto de contato no sistema de saúde com base nas definições de casos e na avaliação dos sintomas, e insira os casos suspeitos ou confirmados no fluxo.[2] Isole imediatamente todos os casos suspeitos e confirmados e implemente procedimentos locais de prevenção e controle de infecções. Faça uma triagem dos pacientes com uma ferramenta de triagem padronizada e avalie o paciente para estimar a gravidade da doença. A COVID-19 é uma doença de notificação compulsória. Os casos suspeitos devem permanecer no fluxo de assistência até que se provem negativos. 

O Best Practice publicou um tópico separado sobre o tratamento de condições coexistentes no contexto da COVID-19. BMJ Best Practice: Management of co-existing conditions in the context of COVID-19 external link opens in a new window

História

Faça uma anamnese detalhada para verificar o nível de risco para COVID-19 e avalie a possibilidade de outras causas, incluindo histórico de viagens recentes e uma avaliação dos fatores de risco. 

Deve-se suspeitar de diagnóstico em:[162]

  • Pacientes com doença respiratória aguda (isto é, febre e pelo menos um sinal/sintoma de doença respiratória, como tosse ou dispneia) e uma história de viagem a, ou residência em, um local com relatos de transmissão comunitária de COVID-19 durante os 14 dias anteriores ao início dos sintomas.

  • Pacientes com qualquer doença respiratória aguda, se eles tiverem estado em contato com um caso confirmado ou provável de COVID-19 nos últimos 14 dias anteriores ao início dos sintomas.

Consulte a seção de Critérios diagnósticos para as definições de caso. 

Apresentação clínica nos adultos

Aproximadamente 15% dos pacientes apresentam a tríade de sintomas de febre, tosse e dispneia, e 90% apresentam mais de um sintoma.[5] Alguns pacientes podem ser minimamente sintomáticos ou assintomáticos, enquanto outros podem apresentar pneumonia grave ou complicações como síndrome respiratória aguda, choque séptico, infarto agudo do miocárdio, tromboembolismo venoso ou insuficiência de múltiplos órgãos. 

Os sintomas mais comuns são:

  • Febre

  • Tosse

  • Dispneia

  • Alteração do olfato/paladar.

Os sintomas menos comuns incluem:

  • Mialgia ou artralgia

  • Fadiga

  • Anorexia

  • Produção de escarro

  • Constrição torácica

  • Sintomas gastrointestinais

  • Faringite

  • Tontura

  • Cefaleia

  • Sintomas neurológicos

  • Sintomas cutâneos

  • Rinorreia/congestão nasal 

  • Dor torácica

  • Conjuntivite

  • Hemoptise. 

Os sinais e sintomas de doença respiratória febril podem não ter a sensibilidade necessária para suspeita diagnóstica precoce.[337] Uma revisão Cochrane revelou que pelo menos metade dos pacientes apresentou tosse, faringite, febre, mialgia/artralgia, fadiga ou cefaleia. A presença de febre, mialgia/artralgia, fadiga e cefaleia aumentou substancialmente a probabilidade de COVID-19 quando presente. A tosse e a faringite foram comuns em pessoas sem COVID-19; portanto, esses sintomas isoladamente foram menos úteis para o diagnóstico. Nenhum sintoma ou sinal único incluído na revisão conseguiu diagnosticar com precisão a COVID-19 e os autores concluíram que nem a ausência ou nem a presença de sinais ou sintomas é precisa o suficiente para confirmar ou descartar a doença.[338]

O quadro clínico variou um pouco entre localizações geográficas. As impressões iniciais nos EUA observam que o quadro clínico pode ser mais amplo do que o observado na China e na Itália, com dor torácica, cefaleias, estado mental alterado e sintomas gastrointestinais, todos observados à apresentação inicial. Disfunção hepática e renal grave que poupa os pulmões também foi observada.[339] Dados dos primeiros pacientes hospitalizados em Nova York revelaram que, embora os sintomas manifestos mais comuns tenham sido febre, tosse, dispneia e mialgia, os sintomas gastrointestinais pareceram ser mais comuns que na China.[171]

Em termos de gravidade:[14]

  • 80% dos adultos se apresentam com doença leve a moderada

  • 14% dos adultos se apresentam com doença grave

  • 5% dos adultos se apresentam com doença crítica

  • 1% dos adultos apresentam doença assintomática. 

Os sintomas mais prevalentes nos pacientes com doença leve a moderada, de acordo com um estudo europeu, são cefaleia, perda de olfato, congestão nasal, tosse, astenia, mialgia, rinorreia, disfunção gustativa e faringite. A febre foi relatada com menos frequência. A duração média dos sintomas foi de 11.5 dias. A apresentação variou de acordo com a idade, sendo que os pacientes mais jovens geralmente apresentaram queixas de ouvido, nariz e garganta, e os pacientes mais idosos geralmente apresentaram febre, fadiga e perda de apetite.[340]

Há evidências anedóticas sugerindo que a evolução da doença pode ser prolongada, com sintomas em constante mudança e períodos de sensação de melhora intercalados com períodos de recidiva em alguns pacientes (semelhante a uma síndrome de fadiga pós-viral), mesmo naqueles com doença leve .[341][342]

Gestantes

  • As características clínicas nas gestantes são semelhantes às relatadas para adultos não gestantes.[343] É importante observar que sintomas como febre, dispneia, sintomas gastrointestinais e fadiga podem se sobrepor a outros sintomas devido às adaptações fisiológicas à gestação ou a eventos adversos da gestação.[2]

Apresentações atípicas

  • Podem ocorrer apresentações atípicas, especialmente nos pacientes idosos e nos que estejam imunocomprometidos (por exemplo, quedas, delirium/confusão, declínio funcional, mobilidade reduzida, síncope, soluços persistentes, ausência de febre). Os pacientes idosos e com comorbidades podem apresentar sintomas leves, mas têm um alto risco de deterioração.[2]

  • Houve relatos de casos de parotidite (possivelmente relacionada a linfadenite intraparotideana), lesões vesiculobolhosas orais, lesões retinianas e alopecia androgenética em pacientes com COVID-19; no entanto, ainda não se sabe se esses achados estão associados à infecção pelo coronavírus causador de síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2).[344][345][346][347]

Coinfecções

  • Coinfecções bacterianas foram relatadas em 7% dos pacientes hospitalizados e em 14% dos pacientes em unidades de terapia intensiva. As bactérias mais comuns foram Mycoplasma pneumoniae, Pseudomonas aeruginosa, Haemophilus influenzae e Klebsiella pneumoniae. As coinfecções com patógenos fúngicos e vírus (por exemplo, vírus sincicial respiratório, gripe (influenza) A) foram menos comumente relatadas.[348]

  • As coinfecções podem estar associadas a sintomas respiratórios prolongados, permanência prolongada na terapia intensiva, morbidade e mortalidade, se não forem detectadas e tratadas precocemente.[349] 

  • Os pacientes com coinfecção por gripe (influenza) apresentaram características clínicas semelhantes às dos pacientes com COVID-19 somente.[350][351]

Apresentação clínica em crianças

Os sinais e sintomas podem ser semelhantes aos de outras infecções respiratórias virais comuns e outras doenças infantis. Portanto, é necessário um alto índice de suspeita para a COVID-19 em crianças.

Em termos de gravidade:[352]

  • 37% das crianças apresentam doença leve 

  • 45% das crianças apresentam doença moderada 

  • 3% das crianças se apresentam com doença grave

  • 0.6% das crianças se apresentam com doença crítica

  • 16% das crianças apresentam doença assintomática.

Até o momento, as evidências sugerem um ciclo mais leve, ou assintomático, da doença em cerca de 95% das crianças, mas com possíveis evidências de alterações pulmonares radiológicas em ambas as categorias. Os sintomas comumente relatados incluem febre, tosse, faringite, congestão nasal e rinorreia. A febre, a tosse e a dispneia são menos comuns nas crianças em comparação com os adultos. As crianças podem apresentar sintomas gastrointestinais mais comumente que os adultos, principalmente neonatos e bebês, e eles podem ser os únicos sintomas.[353] Convulsões febris foram raramente relatadas.[22] As manifestações clínicas em crianças menores de 5 anos parecem ser mais leves em comparação com as da infecção por influenza A.[354]  

A doença grave foi raramente relatada em crianças.[353][355] Em um estudo transversal com 48 lactentes e crianças em estado crítico nos EUA, a evolução clínica e os desfechos hospitalares foram melhores, comparados com adultos. De maneira similar aos adultos, 80% das crianças em estado crítico tinham comorbidades preexistentes, mais comumente imunossupressão/câncer, obesidade e diabetes.[356] Há uma crescente preocupação de que uma síndrome inflamatória relacionada esteja se manifestando em crianças com doença grave. Consulte a seção Complicações para obter mais informações.

Foram relatados casos de COVID-19 em neonatos. A dispneia é o sinal mais comum nos neonatos. Embora a doença seja geralmente leve, a doença grave, incluindo casos de sepse e encefalite neonatal de início tardio foi relatada. A doença grave é um pouco mais comum nos neonatos em comparação com as crianças mais velhas. Os bebês podem apresentar irritabilidade, choro, dificuldades alimentares, hipóxia silenciosa e sintomas neurológicos.[353][357][358][359]

As coinfecções podem ser mais comuns em crianças.[360] A coinfecção foi documentada em 6% das crianças em estudos nos EUA e na Itália, e os patógenos mais comuns foram o vírus sincicial respiratório, o rinovírus, o vírus Epstein-Barr, enterovírus, influenza A, coronavírus não SARS e Streptococcus pneumoniae.[21][22]

Exame físico

Realize um exame físico. Evite o uso de um estetoscópio, se possível, devido ao risco de contaminação viral. Os pacientes podem estar febris (com ou sem calafrios) e apresentar tosse óbvia e/ou dificuldade para respirar. A ausculta torácica pode revelar crepitações inspiratórias, estertores e/ou sopro tubário nos pacientes com pneumonia ou desconforto respiratório. Os pacientes com desconforto respiratório podem apresentar taquicardia, taquipneia ou hipóxia acompanhada de cianose. Bradicardia foi observada em uma pequena coorte de pacientes com doença leve a moderada.[361]

Oximetria de pulso

A oximetria de pulso pode revelar uma baixa saturação de oxigênio (SpO₂ <90%). Os médicos devem estar cientes de que os pacientes com COVID-19 podem desenvolver "hipóxia silenciosa": suas saturações de oxigênio podem cair para níveis baixos e precipitar insuficiência respiratória aguda sem a presença de sintomas óbvios de desconforto respiratório. Apenas uma pequena proporção de pacientes apresenta disfunção de outros órgãos, o que significa que, após a fase inicial de deterioração aguda, os métodos tradicionais de reconhecimento de deterioração adicional (por exemplo, o National Early Warning Score 2 [NEWS2]) podem não ajudar a prever os pacientes que passam a desenvolver insuficiência respiratória.[362]

Embora o NEWS2 ainda seja recomendado para uso em pacientes com COVID-19, o Royal College of Physicians do Reino Unido agora recomenda que qualquer aumento nas necessidades de oxigênio nesses pacientes deva desencadear uma chamada de encaminhamento para um tomador de decisão clínico competente e levar a um aumento inicial nas observações a pelo menos a cada hora até que haja uma revisão clínica.[363]

Investigações laboratoriais iniciais

Solicite as seguintes investigações laboratoriais a todos os pacientes com doença grave:

  • gasometria arterial

  • Hemograma completo

  • Perfil metabólico completo

  • Nível glicêmico

  • Coagulograma

  • Marcadores inflamatórios (por exemplo, proteína C-reativa sérica, velocidade de hemossedimentação, interleucina-6, lactato desidrogenase, procalcitonina, amiloide A e ferritina)

  • Biomarcadores cardíacos

  • Creatina quinase sérica.

As anormalidades laboratoriais mais comuns são linfopenia, leucocitose, leucopenia, trombocitopenia, albumina reduzida, biomarcadores cardíacos elevados, marcadores inflamatórios elevados, dímero D elevado e funções hepática e renal anormais.[171][364][365][366] As anormalidades laboratoriais – em particular linfopenia, anormalidades leucocitárias e outros marcadores de inflamação sistêmica – são menos comuns nas crianças.[353][367][368] A maioria dos pacientes (62%) com doença assintomática apresenta parâmetros laboratoriais normais. Nos pacientes com anormalidades laboratoriais, a leucopenia, a linfopenia, a lactato desidrogenase elevada e a proteína C-reativa elevada foram os achados mais comuns.[369]

Colete amostras de escarro e de sangue para cultura em todos os pacientes com doença grave ou crítica para descartar outras causas de infecção do trato respiratório inferior e sepse, principalmente os pacientes com história epidemiológica atípica. As amostras devem ser coletadas antes de se iniciar o regime antimicrobiano empírico, se possível.[2]


Punção de artéria radial - Vídeo de demonstraçãoPunção de artéria radial - Vídeo de demonstração

Teste molecular

A testagem molecular é necessária para confirmar o diagnóstico. Os testes diagnósticos devem ser realizados de acordo com as orientações emitidas pelas autoridades de saúde locais e deve estar em conformidade com as práticas de biossegurança correspondentes. Caso o teste não esteja disponível no território nacional, devem ser enviadas amostras a um laboratório de referência. As amostras para testagem devem ser coletadas de acordo com os procedimentos adequados de prevenção e controle de infecções.

As decisões sobre quem testar devem ser baseadas em fatores clínicos e epidemiológicos. Consulte as autoridades de saúde locais para obter orientação, pois as prioridades para a realização dos testes dependerão das diretrizes locais e dos recursos disponíveis. Quando os recursos são limitados, certos grupos de pessoas podem precisar ser priorizados para teste. No Reino Unido, a realização de testes é recomendada em todas as pessoas com sintomas de nova tosse continuada, temperatura elevada ou alteração do olfato/paladar.[370] Nos EUA, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças publicaram recomendações detalhadas sobre os testes, incluindo orientações para instituições asilares e unidades de cuidados de longa permanência, e trabalhadores essenciais que tiverem sido expostos.[371]

Realize um teste de amplificação de ácidos nucleicos, como reação em cadeia da polimerase via transcriptase reversa em tempo real (RT-PCR) para SARS-CoV-2 nos pacientes apropriados com suspeita de infecção, com confirmação por sequenciamento de ácidos nucleicos, quando necessária.[372]

  • Colete amostras do trato respiratório superior (lavado ou swab orofaríngeo ou nasofaríngeo) nos pacientes ambulatoriais e/ou amostras do trato respiratório inferior (escarro e/ou aspirado endotraqueal ou lavado broncoalveolar) nos pacientes com doença respiratória mais grave. Considere o alto risco de aerossolização ao coletar amostras do trato respiratório inferior. 

  • Também considere coletar amostras clínicas adicionais (por exemplo, sangue, fezes, urina).

A interpretação do resultado do exame depende da precisão do teste e da probabilidade pré-teste (ou risco estimado de doença) antes da testagem. Um resultado positivo tem mais peso que um negativo devido à alta especificidade do teste (aproximadamente 95%), apesar da sensibilidade moderada (aproximadamente 70%).[373]

Foram relatadas taxas de falsos-negativos entre 2% e 29%.[373] A probabilidade de um resultado falso-negativo em uma pessoa infectada diminui de 100% no dia 1 da infecção para 67% no dia 4. A taxa mediana de falso-negativos cai para 38% no dia do início dos sintomas, diminui para 20% no dia 8 e depois começa a aumentar novamente a partir do dia 9.[374]

Um ou mais resultados negativos não descartam a possibilidade de infecção. Caso seja obtido um resultado negativo de um paciente com alto índice de suspeita de COVID-19 (ou uma alta probabilidade pré-teste), outras amostras devem ser coletadas e testadas, principalmente se apenas amostras do trato respiratório superior tiverem sido coletadas inicialmente.[372] As diretrizes recomendam que sejam necessários dois testes consecutivos com resultado negativo (com intervalo de, pelo menos um dia entre eles) para descartar a COVID-19; no entanto, há um relato de caso de um paciente com dois resultados negativos consecutivos e que só teve um resultado positivo 11 dias após o início dos sintomas e confirmação de achados típicos na tomografia computadorizada (TC) do tórax.[375]

Colete swabs nasofaríngeos para testagem para descartar a infecção por outros patógenos respiratórios (por exemplo, influenza, patógenos atípicos), quando indicada clinicamente, de acordo com as orientações locais. Dependendo da epidemiologia local e dos sintomas clínicos, realize testes para outras potenciais causas, incluindo a malária, a dengue e a febre tifoide, conforme apropriados. É importante observar que podem ocorrer coinfecções, e um exame positivo para um patógeno não COVID-19 não descarta a COVID-19.[2][376]

Teste sorológico

Os testes sorológicos estão se tornando cada vez mais disponíveis para uso; entretanto, embora kits de detecção rápida de anticorpos tenham sido aprovados para a detecção qualitativa de anticorpos do tipo imunoglobulina G (IgG)/IgM contra o SARS-CoV-2 no soro, plasma ou sangue total, a Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda o uso desses testes fora do contexto da pesquisa, pois eles ainda não foram validados.[377]

As evidências são particularmente fracas para os testes sorológicos remotos. Uma metanálise revelou que a sensibilidade global dos imunoensaios quimioluminescentes (CLIAs) para IgG ou IgM foi de aproximadamente 98%, e a sensibilidade dos ensaios de imunoadsorção enzimática (ELISA) foi de 84%; no entanto, os imunoensaios de fluxo lateral (LFIAs), que foram desenvolvidos como testes laboratoriais remotos, apresentaram a menor sensibilidade, 66%. A sensibilidade do teste foi maior 3 ou mais semanas após o início dos sintomas. As evidências disponíveis não apoiam o uso dos testes sorológicos remotos existentes.[378]

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA recomendam que os ensaios sorológicos que receberam autorização de uso emergencial da Food and Drug Administration sejam preferidos. Não há vantagem entre os ensaios, independentemente de se testam IgG, IgM, IgM e IgG ou anticorpo total. O valor preditivo positivo do teste deve ser alto (99.5% ou superior) e os resultados devem ser interpretados no contexto dos valores preditivos esperados (positivo e negativo). Os testes podem ser usados para auxiliar no diagnóstico de pacientes que se apresentam 9 a 14 dias após o início dos sintomas. Os exames sorológicos não devem ser usados para tomar decisões sobre as pessoas retornarem ao trabalho.[379]

As respostas de anticorpos ao SARS-CoV-2 geralmente ocorrem durante as primeiras 1 a 3 semanas da doença, sendo o tempo de soroconversão dos anticorpos IgG frequentemente inferior ao dos anticorpos IgM.[380][381] Uma revisão Cochrane revelou que os testes de anticorpos para IgG/IgM detectaram apenas 30% das pessoas com COVID-19 quando o teste foi realizado 1 semana após o início dos sintomas, mas a precisão aumentou na semana 2, com 70% detectados e na semana 3, com mais de 90% detectados. Os dados para além de 3 semanas foram limitados. Os testes deram resultados falsos positivos em 2% dos pacientes sem COVID-19. A revisão constatou que a sensibilidade dos testes de anticorpos é muito baixa na primeira semana desde o início dos sintomas para ter um papel primário no diagnóstico de COVID-19, mas é provável que os testes tenham um papel útil na detecção de infecção anterior se usados 15 ou mais dias após o início dos sintomas (embora existam muito poucos dados além de 35 dias).[382]

Amostras séricas podem ser armazenadas para definir casos de maneira retrospectiva quando testes sorológicos validados estiverem disponíveis. 

Exame de imagem torácica

Todos os procedimentos de imagem devem ser realizados de acordo com os procedimentos locais de prevenção e controle da infecção, para evitar a transmissão. O exame de imagem torácico é considerado seguro em gestantes.[383]

Solicite uma radiografia torácica a todos os pacientes com suspeita de pneumonia. Infiltrados pulmonares unilaterais são encontrados em 25% dos pacientes, e infiltrados pulmonares bilaterais são encontrados em 75% dos pacientes.[4][5][384] Embora a radiografia torácica pareça ter uma sensibilidade menor em comparação à TC de tórax, ela tem as vantagens de necessitar de menos recursos, associada a doses mais baixas de radiação, ser mais fácil de se repetir sequencialmente e de ser portátil.[385]

Considere solicitar uma TC de tórax . A TC é a modalidade de imagem primária em alguns países, como a China. Pode ser útil para se fazer o diagnóstico, orientar decisões de tratamento de pacientes individuais, auxiliar no diagnóstico de complicações ou fornecer pistas para um diagnóstico alternativo. No entanto, não é diagnóstica para a COVID-19 e as orientações locais devem ser consultadas sobre a realização de uma TC.

A British Society of Thoracic Imaging (BSTI) recomenda o exame de imagem por TC em pacientes com suspeita clínica de COVID-19 que estejam gravemente enfermos, se a radiografia torácica for incerta ou normal. Sem a suspeita de COVID-19, a radiologia é inespecífica e pode representar muitos outros processos de doença. A BSTI, em colaboração com o NHS da Inglaterra, produziu uma ferramenta de apoio à decisão radiológica para ajudar os médicos a decidir se a imagem torácica deve ou não ser solicitada.[386]

BSTI: radiology decision tool for suspected COVID-19 external link opens in a new window

Algumas instituições no Reino Unido recomendam uma abordagem mais pragmática para os pacientes com alta suspeita clínica de COVID-19, com TC de tórax recomendada somente após duas radiografias torácicas indeterminadas ou normais em combinação com um teste de RT-PCR negativo.[387]

O American College of Radiology recomenda reservar a TC para pacientes hospitalizados e sintomáticos com indicações clínicas específicas para TC, e enfatiza que uma TC torácica normal não significa que um paciente não tenha COVID-19 e uma TC torácica anormal não é específica para o diagnóstico de COVID-19.[388]

Foram relatados achados de TC torácica anormais em até 97% dos pacientes com COVID-19 em uma metanálise de 50,466 pacientes hospitalizados.[389] Evidências de pneumonia na TC pode preceder um resultado positivo de RT-PCR para SARS-CoV-2 em alguns pacientes.[390] Anormalidades na imagem da TC podem estar presentes em pacientes assintomáticos ou minimamente sintomáticos.[94][391] Mais da metade dos pacientes com doença assintomática apresenta anormalidades na TC.[369] Alguns pacientes podem apresentar um achado torácico normal, apesar de uma RT-PCR positiva.[392] Além disso, os resultados do teste de RT-PCR podem ser falso-negativos; portanto, pacientes com achados típicos à TC devem repetir o teste de RT-PCR para confirmar o diagnóstico.[393]

Características típicas

  • Os achados mais comuns são a opacidade em vidro fosco, isoladamente ou coexistindo com outros achados, como condensação, espessamento septal interlobular ou padrão em mosaico. O padrão de distribuição mais comum é a distribuição posterior bilateral, periférica/subpleural das opacidades, com predominância do lobo inferior. O envolvimento extenso/multilobar com condensações é mais comum nos pacientes idosos e naqueles com doença grave.[394]

  • A TC geralmente mostra um aumento no tamanho, número e densidade das opacidades em vidro fosco no período de acompanhamento inicial, com uma progressão para áreas mistas de opacidades em vidro fosco, condensações e padrão em mosaico atingindo a intensidade máxima no dia 10 ao 11, antes de remitir gradualmente ou persistir como fibrose irregular.[394]

  • Um pequeno estudo comparativo constatou que pacientes com COVID-19 têm maior probabilidade de comprometimento bilateral com mosqueamento múltiplo e opacidade em vidro fosco, comparado a outros tipos de pneumonia.[395]

  • Com frequência, as crianças apresentam TC do tórax normal ou com achados leves. Os sinais mais comuns nas crianças são a opacidade irregular em vidro fosco e, com menos frequência, áreas de condensação. As anormalidades são mais comuns nos lobos inferiores, e são predominantemente unilaterais. Derrames pleurais são raros.[396] As crianças podem apresentar sinais de pneumonia em exames de imagem do tórax, apesar de sintomas mínimos ou inexistentes.[360] 

Características atípicas

  • Aumento vascular pulmonar, espessamento septal interlobular ou intralobular, espessamento pleural adjacente, broncogramas aéreos, linhas subpleurais, padrão em mosaico, distorção brônquica, bronquiectasia, sinal de retração vacuolar e sinal em halo são características atípicas. Derrame pleural, derrame pericárdico, cavitação, pneumotórax e linfadenopatia mediastinal também foram raramente relatados.[394]

A OMS recomenda exames de imagem do tórax nos seguintes cenários:[385]

  • Pacientes sintomáticos com suspeita de COVID-19 quando o RT-PCR não estiver disponível, os resultados do teste de RT-PCR estiverem atrasados ou o teste inicial de RT-PCR for negativo, mas houver uma alta suspeita clínica de COVID-19 (para o diagnóstico)

  • Pacientes com suspeita ou confirmação de COVID-19 que atualmente não estão hospitalizados e apresentam sintomas leves (para decisão entre a internação hospitalar e a alta para casa) 

  • Pacientes com suspeita ou confirmação de COVID-19 que atualmente não estão hospitalizados e apresentam sintomas moderados a graves (para ajudar na decisão entre internação hospitalar em enfermaria regular ou unidade de terapia intensiva) 

  • Pacientes com suspeita ou confirmação de COVID-19 que atualmente estão hospitalizados e apresentam sintomas moderados a graves (para informar o tratamento terapêutico). 

Novos exames

Amplificação isotérmica mediada por alça com transcrição reversa (RT-LAMP)

  • Os ensaios de amplificação isotérmica mediada por ciclo de transcrição reversa (RT-LAMP) são um teste em desenvolvimento para detectar o RNA viral do SARS-CoV-2. Embora os ensaios sejam simples e rápidos, há menos evidências para seu uso. Foram desenvolvidos ensaios para o SARS-CoV-2, os quais estão sendo avaliados.[397][398][399]

Teste de antígeno

  • Nos EUA, a Food and Drug Administration emitiu uma autorização de uso emergencial para o primeiro teste antígênico para a COVID-19. Esses testes detectam fragmentos de proteínas encontradas no vírus ou dentro dele em amostras coletadas por swabs da cavidade nasal. O teste é mais rápido que a reação em cadeia da polimerase via transcriptase reversa (RT-PCR); no entanto, embora seja muito específico para o vírus, não é tão sensível, de forma que um resultado negativo deve ser confirmado com um teste de RT-PCR.[400]

Ultrassonografia do pulmão

  • A ultrassonografia pulmonar é usada como ferramenta diagnóstica em alguns centros como alternativa à radiografia torácica e à TC do tórax. Embora exista apenas evidências de muito baixa certeza embasando sua precisão diagnóstica, ela pode ser útil como uma modalidade de imagem complementar ou alternativa.[385] Ela tem as vantagens da portabilidade, avaliação à beira do leito, exposição reduzida dos profissionais da saúde, processo de esterilização mais fácil, ausência de exposição à radiação ionizante e repetibilidade durante o acompanhamento. Também pode estar mais facilmente disponível nos cenários de recursos limitados. No entanto, ela também tem limitações (por exemplo, é incapaz de discernir a cronicidade de uma lesão), e outras modalidades de imagem podem ser necessárias. As linhas B são o padrão de destaque nos pacientes com COVID-19, ocorrendo com uma frequência agrupada de 97%. Anormalidades na linha pleural também são comuns, com uma frequência agrupada de 70%. Embora esses achados não sejam específicos para a COVID-19, eles aumentam a probabilidade de doença no contexto de um quadro clínico característico. Os outros achados incluem condensações, espessamento pleural e derrame pleural.[401] Pode ser usada em gestantes e crianças.[402][403]

  • BSTI: lung ultrasound (LUS) for COVID-19 patients in critical care areas external link opens in a new window

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