Etiologia

Virologia

  • A síndrome respiratória aguda grave por coronavírus 2 (SARS-CoV-2) é um betacoronavírus antes desconhecido, que foi descoberto em amostras de lavagem broncoalveolar obtida nos núcleos de pacientes com pneumonia de causa desconhecida na cidade de Wuhan, província de Hubei, China, em dezembro de 2019.[28]

  • Os coronavírus constituem uma grande família de vírus de RNA envelopados, inclusive alguns que causam doenças em humanos (por exemplo, resfriado comum, síndrome respiratória aguda grave [SARS], síndrome respiratória do Oriente Médio [MERS]) e outros que circulam entre mamíferos e aves. Raramente, os coronavírus de animais podem se disseminar para humanos e, em seguida, se disseminam na população, como foi o caso da SARS e da MERS.

  • SARS-CoV-2 pertence ao subgênero Sarbecovirus da família Coronaviridae e é o sétimo coronavírus a infectar seres humanos. Descobriu-se que o vírus é similar aos coronavírus do tipo SARS de morcegos, mas é diferente do SARS-CoV e do MERS-CoV.[29][30]

  • Consulte a seção Classificação abaixo para obter informações sobre as variantes do SARS-CoV-2.

[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Ilustração mostrando a morfologia ultraestrutural apresentada pela síndrome respiratória aguda grave por coronavírus 2 (SARS-CoV-2) quando observada por microscopia eletrônica.Centros de Controle e Prevenção de Doenças [Citation ends].Ilustração mostrando a morfologia ultraestrutural apresentada pela síndrome respiratória aguda grave por coronavírus 2 (SARS-CoV-2) quando observada por microscopia eletrônica.

Origem do vírus

  • A maioria dos pacientes no estágio inicial desse surto relatou uma relação com o Mercado de peixe de Huanan no Sul da China , um mercado de animais vivos ou "úmido", o que sugere que o vírus tenha origem zoonótica.[31][32][33] Uma avaliação inicial da dinâmica de transmissão nos primeiros 425 casos confirmados constatou que 55% dos casos antes de 01 de janeiro de 2020 estiveram associados ao mercado; por outro lado, apenas 8.6% dos casos após essa data estiveram associados ao mercado. Isso sugere que a disseminação entre pessoas esteve ocorrendo entre contatos próximos desde meados de dezembro de 2019.[33] Estudos mais recentes sugerem que o vírus pode ter surgido antes do que se pensava.[34]

  • A origem zoonótica ainda não foi confirmada. Alguns estudos sugeriram que o SARS-CoV-2 pode ser um vírus recombinante entre um coronavírus de morcego e um coronavírus de origem desconhecida, com pangolins e martas sendo sugeridos como possíveis hospedeiros intermediários. No entanto, atualmente não há evidências que demonstrem a possível rota de transmissão de um morcego reservatório para o homem por meio de uma ou várias espécies animais intermediárias.[35] Pesquisas adicionais são necessárias para se determinar a origem do SARS-CoV-2.

Dinâmica da transmissão

  • A transmissão respiratória é o modo de transmissão dominante, com a proximidade e a ventilação sendo os principais determinantes do risco de transmissão.[36] As evidências disponíveis sugerem que a transmissão entre pessoas ocorre principalmente quando uma pessoa infectada está em contato próximo com outra pessoa. O vírus pode se disseminar da boca ou nariz de uma pessoa infectada a partir de pequenas partículas líquidas (variando em tamanho de gotículas maiores a aerossóis menores) quando a pessoa tosse, espirra, canta, respira pesadamente ou fala. O contato a curta distância pode resultar na inalação ou na inoculação do vírus pela boca, nariz ou olhos.[37]

  • A transmissão pelo ar pode ocorrer nos ambientes de assistência médica durante procedimentos que gerem aerossóis. Existem também alguns relatos de surtos que sugerem que a transmissão por aerossol é possível na comunidade sob certas condições; no entanto, esses relatos se referem a espaços fechados e lotados com ventilação insuficiente, onde a pessoa infectada pode ter respirado pesadamente (por exemplo, restaurantes, prática de coral, aulas de ginástica).[37][38] Uma investigação detalhada desses grupos sugere que a transmissão por gotículas e fômites também poderia explicar a transmissão nesses relatos.[37] Embora o ar próximo e distante dos pacientes estivesse frequentemente contaminado com o RNA do SARS-CoV-2, poucas dessas amostras continham vírus viáveis.[39] O risco de transmissão é muito menor ao ar livre em comparação com ambientes internos, com um número limitado de estudos estimando uma taxa de transmissão de <1%.[40] As evidências de que os tratamentos com nebulizador aumentam o risco de transmissão de coronavírus semelhantes ao SARS-CoV-2 são inconclusivas e há evidências diretas mínimas sobre o risco de transmissão do SARS-CoV-2.[41]

  • A transmissão através de fômites (a partir do contato direto com fômites) pode ser possível, mas atualmente não há evidências conclusivas para este modo de transmissão. Nos poucos casos em que a transmissão através de fômites foi presumida, a transmissão respiratória não foi completamente descartada.[36] Enquanto a maioria dos estudos relata a identificação de vírus em superfícies inanimadas, faltam evidências que demonstrem a recuperação de vírus viável.[42]

  • A transmissão fecal-oral (ou a transmissão respiratória através de fezes aerossolizadas) pode ser possível, mas há apenas evidências circunstanciais limitadas para embasar este modo de transmissão.[36]

  • A transmissão por meio de outros fluidos corporais (incluindo a transmissão sexual ou a transmissão hemogênica) não foi relatada.[36] Embora o vírus tenha sido detectado em fluidos corporais (por exemplo, sêmen, urina, líquido cefalorraquidiano, fluidos oculares), a presença de vírus ou de componentes virais não equivale a infecciosidade.[43] Existem dados limitados sobre o risco de transmissão de doadores de órgãos. No entanto, parece haver um baixo risco de transmissão com órgãos não pulmonares (ou seja, rim, fígado, coração) de doadores positivos para SARS-CoV-2, independentemente de o doador estar sintomático no momento da aquisição.[44]

  • A transmissão perinatal (vertical) ocorre de maneira rara, e a transmissão transplacentária já foi documentada. Há evidências limitadas sobre a extensão da transmissão vertical e o seu momento.[45] Fragmentos virais foram detectados no leite materno; no entanto, esse achado é incomum e, quando ocorre, foi associado a sintomas leves em bebês.[46]

  • A transmissão nosocomial foi relatada em 44% dos pacientes em uma revisão sistemática; no entanto, esta revisão foi limitada a séries de casos conduzidas no início do surto em Wuhan, antes da instituição das medidas de prevenção e controle de infecção apropriadas.[47] As infecções adquiridas em hospitais representaram aproximadamente 11.3% das infecções no Reino Unido entre fevereiro e agosto de 2020. O pico delas foi 15.8% em meados de maio. Em algumas áreas, foram relatadas taxas de até 25% em outubro de 2020. As taxas foram notavelmente mais altas em hospitais comunitários residenciais (61.9%) e em hospitais de saúde mental (67.5%) em comparação com hospitais gerais e de cuidados agudos (9.7%).[48][49] Estudos de profissionais da saúde expostos a casos índice (não na presença de procedimentos geradores de aerossóis) encontraram pouca ou nenhuma transmissão nosocomial quando foram usadas precauções contra contato e gotículas.[50] O risco para os profissionais da saúde que realizam ou auxiliam uma traqueostomia parece ser baixo.[51]

  • BMJ: visualising SARS-CoV-2 transmission routes and mitigations Opens in new window

Dinâmica da transmissão em relação aos sintomas

  • A transmissão será mais provável se os contatos forem expostos pouco antes ou depois do início dos sintomas no paciente índice. Em um estudo, o risco de transmissão para contatos próximos se mostrou maior se a exposição ocorreu entre -2 e 3 dias após o início dos sintomas no paciente-índice. Entre os contatos que se infectaram, a infecção assintomática foi mais comum se eles foram expostos a um paciente-índice assintomático, o que sugere que a gravidade da doença no paciente-índice pode estar associada à apresentação clínica da doença.[52]

  • A transmissão posterior varia de acordo com o hospedeiro específico e os fatores de contato, e a natureza da exposição. Os fatores associados a maior transmissão incluem:[53]

    • Fatores ambientais: ambiente interno, ventilação deficiente, aglomeração, proximidade, instalações compartilhadas, temperatura ambiente fria, baixa umidade

    • Fatores do hospedeiro: infecção recente, carga viral alta, doença grave, idade, presença de comorbidades, imunocomprometimento

    • Fatores comportamentais: cantar/gritar, tossir/espirrar, abraçar/beijar, etiqueta de uso de máscara, higiene das mãos, duração do contato

    • Fatores virais: alterações no genoma viral ligadas a aumento da transmissibilidade.

  • Transmissão sintomática

    • A transmissão ocorre principalmente através de gotículas respiratórias ou aerossóis durante o contato próximo com um caso sintomático infectado. A transmissibilidade depende da quantidade de vírus viável que estiver sendo eliminado e expelido por uma pessoa, o tipo de contato, o ambiente e quais medidas de prevenção e controle de infecção estiverem em vigor.[37]

  • Transmissão pré-sintomática

    • A transmissão pode ocorrer durante o período de incubação antes do início dos sintomas.

    • Embora haja evidências de transmissão de pessoas pré-sintomáticas, há evidências limitadas sobre a frequência com que isso pode ocorrer e as taxas de transmissão estimadas são altamente variáveis.[54][55]

    • Apenas 7% das pessoas expostas a um caso índice pré-sintomático foram infectadas em uma revisão sistemática.[56]

    • Pessoas sem sintomas podem ser pré-sintomáticas, ou podem permanecer persistentemente assintomáticas.

  • Transmissão assintomática

    • Foi relatada transmissão de casos assintomáticos (casos confirmados por laboratório que nunca desenvolveram sintomas); no entanto, a maioria das evidências é baseada em dados iniciais da China e tem limitações (por exemplo, pequeno número de casos, os casos podem ter sido pré-sintomáticos).[57][58][59][60][61][62][63] Numerosos estudos não relataram evidências de transmissão assintomática de portadores do SARS-CoV-2, incluindo um grande estudo em quase 10 milhões de residentes em Wuhan.[64][65][66][67] Apenas 1% das pessoas expostas a um caso índice assintomático foram infectadas em uma revisão sistemática, sugerindo uma infecciosidade limitada.[56]

    • Estimar a prevalência dos casos assintomáticos na população é difícil. Uma revisão sistemática e metanálise viva revelou que o intervalo interquartil para a proporção de casos persistentemente assintomáticos foi de 14% a 50% entre os estudos; no entanto, a heterogeneidade foi alta, de modo que o estudo não estimou uma proporção média de infecções assintomáticas em geral.[68] Uma metanálise de mais de 130,000 pessoas revelou que 21.7% permaneceram assintomáticos durante a evolução da infecção (após exclusão dos casos pré-sintomáticos). A análise de subgrupos mostrou que a taxa global de infecções assintomáticas foi maior nas gestantes (48.8%) e crianças (32.1%). Os estudos africanos relataram a maior taxa de infecção assintomática, enquanto os estudos asiáticos relataram a menor.[69]

    • Os profissionais da saúde podem desempenhar um papel na transmissão assintomática. Cerca de 7.6% dos profissionais da saúde que trabalharam em unidades hospitalares com pacientes infectados apresentaram resultados positivos para anticorpos contra SARS-CoV-2; no entanto, apenas 58% desses profissionais relataram sintomas prévios.[70]

    • Embora haja algumas evidências de que as crianças mais velhas apresentam taxas mais altas de doença assintomática do que bebês com <1 ano de idade, a maioria das crianças apresenta doença sintomática e não parecem ser disseminadoras silenciosas de infecção.[22]

Eventos de super-disseminação

  • Eventos de super-disseminação foram relatados. Esses eventos estão associados a crescimento explosivo no início de um surto e a transmissão sustentada em estágios posteriores. Os exemplos incluem reuniões religiosas/em igrejas, reuniões familiares ou sociais, práticas de coral, atividades esportivas recreativas em ambientes fechados, boates, restaurantes, conferências de negócios e trabalho em call centers. A disseminação generalizada também foi relatada em unidades de cuidados de longa permanência, abrigo, prisões e instalações de processamento de carnes e aves, bem como a bordo de navios de cruzeiro.[71]

  • A transmissão limitada foi relatada em creches, escolas e universidades.[72][73] Há evidências de alta qualidade limitadas para quantificar a extensão da transmissão nas escolas ou para compará-la com a transmissão na comunidade. No entanto, as evidências sugerem uma menor taxa global de ataques da infecção em funcionários de escolas (1.18%) em comparação com os alunos (1.66%). Evidências recentes sugerem que a taxa global de ataques da infecção e a taxa de positividade para SARS-CoV-2 em ambientes escolares são baixas.[74][75] Durante os períodos de baixa incidência de infecção na população local em escolas com intervenções não farmacêuticas, o risco para a equipe escolar não é geralmente maior que o da população geral e não é comparável a outras profissões de alto risco (por exemplo, profissionais de saúde). Os períodos de relatórios de estudos de alta incidência de infecção são limitados, mas mostram um risco maior para os funcionários de escolas nessas circunstâncias.[76] Em um estudo, a infecção em contatos próximos em escolas secundárias e faculdades na Inglaterra foi incomum (aproximadamente 2%).[77]

  • Alguns indivíduos são superconcentradores do vírus, mas os motivos subjacentes aos eventos de super-disseminação costumam ser mais complexos que apenas o excesso de eliminação de partículas virais e podem incluir uma variedade de fatores comportamentais, do hospedeiro e ambientais.[78]

Fatores de transmissão viral

  • Período de incubação

    • O período de incubação é estimado entre 1 e 14 dias, com mediana de 5 a 7 dias (9.6 dias em crianças).[79][80][81]

  • Número reprodutivo (R₀)

    • Uma revisão sistemática e análise estima o número de reprodução em 2.69 (com base na literatura publicada de janeiro a agosto de 2020).[82] Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA estimam que o R₀ seja de 2.5.[83]

  • Intervalo serial

    • O intervalo serial foi estimado em aproximadamente 5.45 dias (intervalo de 4.2 a 6.7 dias).[84] Novas evidências não respaldam nenhuma diferença significativa no intervalo serial entre as variantes Delta e do tipo selvagem.[85]

  • Taxa de ataque secundário

    • A taxa de ataques secundários combinada entre todos os contatos próximos de um caso índice foi estimada em 7%, com base em dados do início da pandemia.[86] A taxa combinada varia entre os ambientes de contato com uma taxa estimada de 18.9% a 21.1% em ambientes domésticos (até 17 de junho de 2021), 3.6% em estabelecimentos de saúde, 1.2% a 5.9% em ambientes sociais e 1.9% em locais de trabalho. A taxa é maior para os casos índice sintomáticos em comparação com casos assintomáticos e para os adultos em comparação com as crianças.[68][87][88][89] Uma taxa de ataques secundários global mais alta de 37.3% foi relatada em ambientes domésticos em uma metanálise mais recente devido às variantes circulantes do SARS-CoV-2.[90] A taxa global agrupada de ataques secundários em instituições de cuidados de longa permanência foi muito maior: 42% entre os residentes e 22% entre os funcionários.[91] A taxa em crianças e jovens foi maior nos ambientes domésticos em comparação com ambientes escolares.[92] As taxas de ataques secundários para variantes do SARS-CoV-2 podem diferir. A taxa de ataques secundários para a variante Ômicron é maior em comparação com outras variantes do SARS-CoV-2.[90][93] Consulte a seção Classificação para obter mais informações.

  • Carga viral

    • A carga viral parece ser o principal fator de transmissão do vírus; cargas virais mais altas estão associadas a taxas aumentadas de ataques secundários e a um maior risco de desenvolvimento de doença sintomática.[94] A carga viral é mais elevada no trato respiratório superior (nasofaringe e orofaringe) no início da evolução da infecção (em geral, atinge a intensidade máxima na primeira semana da doença) e, em seguida, aumenta no trato respiratório inferior (escarro). A carga viral diminui após o início dos sintomas. Os pacientes com doença grave têm cargas virais mais altas em comparação com aqueles com doença leve. A carga viral no trato respiratório superior é comparável em pacientes assintomáticos e sintomáticos; entretanto, a maioria dos estudos demonstra eliminação viral mais rápida entre pessoas assintomáticas em comparação com pessoas sintomáticas.[95]

  • Eliminação de partículas virais

    • A duração média da eliminação de partículas virais depende da amostra: 17 dias no trato respiratório superior (máximo de 83 dias); 14.6 dias no trato respiratório inferior (máximo de 59 dias); e 17.2 dias nas fezes (máximo de 126 dias). A duração da disseminação de partículas virais foi maior nos pacientes sintomáticos em comparação com pacientes assintomáticos, e nos pacientes com doença grave em comparação com aqueles com doença não grave.[95] Os pacientes imunocomprometidos podem eliminar partículas virais por pelo menos 2 meses.[96] Há relatos de super espalhadores de partículas virais que liberaram o vírus por períodos prolongados (o mais longo foi um caso que testou positivo por 505 dias).[97] Não há evidências convincentes de que a duração da eliminação de partículas virais se correlacione com a duração da infectividade.[98] Nenhum vírus viável foi isolado em pacientes com doença leve ou moderada após 10 dias de sintomas, ou após 20 dias naqueles com doença grave ou crítica, apesar da eliminação de partículas virais continuada.[36] As pessoas totalmente vacinadas podem ter uma duração mais curta de eliminação viável de partículas virais em comparação com pessoas parcialmente vacinadas ou não vacinadas.[99]

  • Estudo com teste de desafio em humanos

    • O primeiro estudo com teste de desafio em humanos foi publicado em um servidor pré-impressão (sem revisão por pares). Um total de 36 voluntários com idades entre 18 e 29 anos sem evidência de infecção prévia ou vacinação foram inoculados com uma dose intranasal de vírus SARS-CoV-2 do tipo selvagem. Dezoito voluntários (53%) tornaram-se infectados. A maioria (89%) não apresentou sintomas ou apresentou sintomas leves a moderados. Naqueles infectados, a disseminação de partículas virais tornou-se quantificável em swabs de garganta a partir de 40 horas. A carga viral aumentou abruptamente e atingiu o pico 5 dias após a inoculação. O vírus foi detectado pela primeira vez na garganta, mas subiu para níveis significativamente mais altos no nariz por até 10 dias após a inoculação.[100]

Fisiopatologia

A fisiopatologia exata permanece desconhecida, em parte devido à escassez de estudos post-mortem.[101] A fisiopatologia se assemelha à de outras infecções por coronavírus. No entanto, novas evidências indicam que a COVID-19 tem características fisiopatológicas distintas que a distinguem da insuficiência respiratória de outras origens.[102]

O SARS-CoV-2 se liga ao receptor da enzima conversora de angiotensina-2 (ECA2) nas células hospedeiras alvo, o que é seguido pela internalização e replicação do vírus. Os receptores ECA2 são altamente expressos nas células dos tratos respiratórios superior e inferior, mas também são expressos nas células do miocárdio, células epiteliais renais, enterócitos e células endoteliais em múltiplos órgãos, o que pode explicar as manifestações extrapulmonares associadas com a doença.[103] O RNA viral foi identificado em muitos órgãos em estudos post-mortem.[101]

[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Complicações da COVID-19 em múltiplos órgãos e COVID longa. O vírus SARS-CoV-2 consegue entrar nas células de vários órgãos por meio do receptor ECA2BMJ. 2021;374:n1648 [Citation ends].Complicações da COVID-19 em múltiplos órgãos e COVID longa. O vírus SARS-CoV-2 consegue entrar nas células de vários órgãos por meio do receptor ECA2

O vírus utiliza a serino-protease transmembrana 2 (TMPRSS2) do hospedeiro para a iniciação da proteína da espícula (spike) e a fusão do vírus com as membranas celulares do hospedeiro.[104] A proteína da espícula (spike) do SARS-CoV-2 desempenha um papel fundamental no reconhecimento do receptor ECA2 e no processo de fusão à membrana celular. Uma característica estrutural única do domínio de ligação ao receptor de glicoproteína da espícula confere afinidade de ligação potencialmente maior para o ECA2 nas células hospedeiras em comparação com o SARS-CoV-1.[105] Este sítio de clivagem semelhante à furina não parece existir em outros coronavírus.[106] A energia de ligação entre a proteína da espícula (spike) e o receptor ECA2 foi a mais elevada para os seres humanos dentre todas as espécies testadas em um estudo, o que sugere que a proteína da espícula (spike) evoluiu de maneira exclusiva para se ligar e infectar células humanas que expressam o ECA2.[107] Novas evidências sugerem que a proteína da espícula (spike) pode danificar por si só as células endoteliais pela regulação negativa do ECA2 e, consequentemente, inibir a função mitocondrial. Pesquisas adicionais são necessárias para se saber se a proteína da espícula (spike) pode, por si só, desencadear a sinalização celular que pode levar a vários processos biológicos.[108][109] As variantes do SARS-CoV-2 podem ser mais transmissíveis, pelo menos em parte, devido à maior afinidade de ligação da proteína da espícula (spike) para o receptor ECA2.[110]

[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Ciclo de replicação viralBMJ. 2020;371:m3862 [Citation ends].Ciclo de replicação viral

Além da lesão citopática viral direta, a doença grave é frequentemente complicada por uma microangiopatia ou um estado hipercoagulável induzido pela infecção que causa trombose capilar, venosa e/ou arterial, que pode causar danos em órgãos-alvo devido a doença trombótica ou embólica distante. Microtrombos disseminados foram identificados em quase todos os órgãos em estudos post-mortem. Os achados patológicos predominantes nos casos fatais foram dano alveolar difuso, coagulopatia e comprometimento hemodinâmico. O envolvimento de órgãos não pulmonares foi limitado a inflamação leve do parênquima (por exemplo, miocardite, hepatite, encefalite). A lesão citopática viral direta dos órgãos extrapulmonares em geral não foi considerada como causa de insuficiência orgânica.[101][103] A maioria dos achados em órgãos não pulmonares foi relacionada a doenças crônicas.[111] A endotelite induzida pelo SARS-CoV-2 pode desempenhar um papel nas manifestações respiratórias e não respiratórias.[112]

Três principais fenótipos de tecido surgiram no tecido pulmonar após a morte: um fenótipo clássico caracterizado por dano alveolar difuso progressivo; broncopneumonia por infecção secundária; e trombose tecidual. Esses fenótipos não são mutuamente exclusivos e podem se sobrepor.[113]

A placentite por SARS-CoV-2 é uma entidade patológica distinta que tem sido relatada em gestantes e é caracterizada por deposição maciça de fibrina perivilosa e intervilosite crônica histiocítica. Ela está associada a aumento do risco de perda gestacional.[114]

Fatores genéticos podem desempenhar um papel na suscetibilidade à infecção e na gravidade da doença; no entanto, pesquisas adicionais são necessárias.[115][116][117][118]

Classificação

Classificação da variante do coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2)

Todos os vírus, incluindo o SARS-CoV-2, mudam ao longo do tempo. A maioria das mudanças tem pouco ou nenhum impacto sobre as propriedades do vírus; no entanto, algumas alterações podem afetar a transmissão do vírus, a gravidade da doença e o desempenho de testes diagnósticos, terapêuticas ou vacinas.

Essas variantes têm surgido e circulado em todo o mundo desde o início da pandemia, e são rotineiramente monitoradas e classificadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como variantes em monitoramento, variantes de interesse ou variantes preocupantes (incluindo as variantes preocupantes em monitoramento).[2] Esses sistemas de classificação podem variar entre os países. Por exemplo, no Reino Unido, as variantes são classificadas apenas como variantes preocupantes pela Health Security Agency (UKHSA) do Reino Unido. As classificações de variantes em monitoramento e variantes sob investigação já foram usadas, mas foram suspensas.[3] Nos EUA, as variantes são classificadas pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) como variantes em monitoramento, variantes de interesse, variantes preocupantes ou variantes de grandes consequências.[4]

A OMS atribuiu rótulos simples para as principais variantes usando letras do alfabeto grego. Isso não substitui os nomes científicos existentes (por exemplo, Pango, Nextstrain, GISAID), que continuam a ser usados nas pesquisas.[2]

Variante de interesse

  • A OMS define uma variante de interesse como uma variante com alterações genéticas que são preditas ou conhecidas por afetar as características do vírus, como transmissibilidade, gravidade da doença, escape imunológico ou escape diagnóstico, ou terapêutico; e que foi identificada como causa de transmissão comunitária ou de agrupamentos de múltiplos casos significativos, em vários países com prevalência relativa crescente juntamente com um número crescente de casos ao longo do tempo, ou outros impactos epidemiológicos aparentes para sugerir um risco emergente para a saúde pública global.[2]

  • Atualmente, não há variantes de interesse circulantes, de acordo com a OMS. As variantes de interesse anteriormente circulantes incluem as variantes Épsilon, Zeta, Eta, Teta, Jota, Kappa, Lambda e Mu.[2]

Variante preocupante

  • A OMS define uma variante preocupante como uma variante que demonstrou estar associada a uma ou mais das seguintes mudanças em um grau de importância para a saúde pública global:[2]

    • Aumento da transmissibilidade ou alteração prejudicial na epidemiologia

    • Aumento da virulência ou mudança na apresentação clínica da doença

    • Diminuição da eficácia das medidas sociais e de saúde pública, ou dos diagnósticos, terapêuticas, ou vacinas disponíveis.

  • A OMS define uma linhagem de variante preocupante em monitoramento como uma variante que, de acordo com a análise filogenética, pertence a uma variante preocupante atualmente circulante e mostra sinais de vantagem na transmissão em comparação com outras linhagens de variantes preocupantes em circulação e apresenta alterações adicionais de aminoácidos que são conhecidos ou suspeitos de conferir a mudança observada na epidemiologia e a vantagem de aptidão em comparação com outras variantes circulantes.[2]

  • A variante preocupante atual de acordo com a OMS é a variante Ômicron. As variantes preocupantes anteriormente circulantes incluem as variantes Alfa, Beta, Gama e Delta. A variante atual de linhagens preocupantes em monitoramento inclui as linhagens Ômicron BA.4 e BA.5 e as sublinhagens BA.2 (BA.2.12.1, BA.2.9.1, BA.2.11, BA.2.13).[2]

Variante Alfa

A variante Alfa foi anteriormente classificada como variante preocupante.[2][3][4]

  • Linhagem Pango: B.1.1.7.

  • Amostras mais recentes documentadas: Reino Unido (setembro de 2020).

  • Transmissibilidade: maior que a do vírus do tipo selvagem.[3]

  • Gravidade da doença: associada a um aumento do risco de hospitalização e internação em unidade de terapia intensiva (sugerindo doença mais grave), mas não de mortalidade, em comparação com o vírus do tipo selvagem, embora os dados sejam conflitantes. Não está associada a alterações nos sintomas relatados ou na sua duração.[5][6][7][8]

Variante Beta

A variante Beta foi anteriormente classificada como variante preocupante.[2][3][4]

  • Linhagem Pango: B.1.351.

  • Amostras mais recentes documentadas: África do Sul (maio de 2020).

  • Transmissibilidade: não é mais transmissível que a variante Alfa.[3]

  • Gravidade da doença: não há informações suficientes disponíveis.[3]

Variante Gama

A variante Gama foi anteriormente classificada como variante preocupante.[2][3][4]

  • Linhagem Pango: P.1.

  • Amostras mais recentes documentadas: Brasil (novembro de 2020).

  • Transmissibilidade: maior que o vírus do tipo selvagem com base em dados limitados.[3]

  • Gravidade da doença: não há informações suficientes disponíveis.[3]

Variante Delta

A variante Delta foi anteriormente classificada como variante preocupante.[2][3][4]

  • Linhagem Pango: B.1.617.2 (incluindo todas as sublinhagens AY).

  • Amostras mais recentes documentadas: Índia (outubro de 2020).

  • Transmissibilidade: maior que a do vírus do tipo selvagem e que a da variante Alfa.[3]

  • Gravidade da doença: associada a um aumento do risco de hospitalização (o que sugere doença mais grave) em comparação com casos da Alfa e Beta contemporâneos; no entanto, houve um alto nível de incerteza nesses achados. A taxa de letalidade bruta foi menor que a da variante Alfa.[3][9]

Variante Ômicron

A variante Ômicron (linhagem Pango B.1.1.529) é atualmente classificada como variante preocupante pela OMS, pela UKHSA e pelo CDC.[2][3][4] A Ômicron é uma variante altamente divergente com um grande número de mutações. Não há via de transmissão ligando a Ômicron às suas antecessoras (Alfa, Delta), e estima-se que sua ancestral genética mais próxima provavelmente remonta a algum momento após meados de 2020.[10] Casos foram relatados pela primeira vez na África do Sul em novembro de 2021. A variante Ômicron tornou-se a variante dominante em muitos países.

A variante Ômicron compreende várias linhagens conhecidas, entre elas a linhagem parental B.1.1.529 e as linhagens descendentes (ou subvariantes) BA.1, BA.1.1, BA.2 (e suas várias sublinhagens), BA.3, BA.4 e BA.5. As linhagens BA.2, BA.4 e BA.5 tornaram-se ou estão se tornando as subvariantes dominantes em alguns países. As linhagens BA.4 e BA.5 foram classificadas como variantes preocupantes no Reino Unido e como linhagens de variantes preocupantes em monitoramento pela OMS.[2][3]

Transmissibilidade

  • A Ômicron tem uma vantagem substancial de crescimento sobre a Delta, e rapidamente substituiu a Delta mundialmente. Há evidências significativas de que a evasão imunológica contribui para sua rápida disseminação, mas não se sabe o quanto o aumento intrínseco da transmissibilidade contribui e pesquisas adicionais são necessárias.[11]

  • Embora os dados sugiram que a BA.2 seja mais transmissível que a BA.1, a diferença na transmissibilidade parece ser muito menor que a diferença entre a BA.1 e a Delta.[12] A BA.2 demonstrou aumento da taxa de crescimento em comparação com a BA.1.[3] Há evidências preliminares da África do Sul e do Reino Unido de que as linhagens BA.4 e BA.5 têm uma vantagem de crescimento em comparação com a BA.2, com a BA.5 crescendo mais rápido que a BA.4 no Reino Unido.[3]

Gravidade da doença

  • Os dados sugerem evidências de menor gravidade e mortalidade mais baixa para a variante Ômicron em comparação com a variante Delta, após o ajuste para os efeitos confundidores de idade, sexo, etnia, infecção prévia, estado de vacinação, comorbidades e efeito da província e efeito do setor público/privado.[13]

  • Evidências de estudos em animais sugerem que a Ômicron não infecta as células profundas do pulmão tão prontamente quanto as células das vias aéreas superiores.[14]

  • Não há nenhuma diferença relatada na gravidade ou nas hospitalizações entre a BA.2 e a BA.1.[3][12] Atualmente, não há evidências de que BA.4 e BA.5 causem doença mais grave que as variantes anteriores.[3]

Eficácia da vacina

  • Há evidências crescentes sobre a eficácia da vacina contra a Ômicron, com dados disponíveis da África do Sul, Reino Unido, EUA, Canadá e Dinamarca. Dados iniciais sugerem que a eficácia é significativamente menor contra a infecção e a doença sintomática pela Ômicron em comparação com a Delta, com doses de reforço homólogas e heterólogas aumentando a eficácia da vacina. As estimativas de eficácia da vacina contra desfechos graves (por exemplo, hospitalização) são menores para a Ômicron em comparação com a Delta, mas a maioria permanece >50% após a série primária e melhora com uma dose de reforço >80%.[11] É incerto o tempo que dura essa proteção aumentada, embora um estudo sugira 4 a 6 meses.[15]

  • Não há diferença relatada na eficácia da vacina entre a BA.2 e a BA.1. Não há dados suficientes para determinar se as linhagens BA.4 ou BA.5 afetam a eficácia da vacina. No entanto, análises preliminares indicam que a situação vacinal dos casos infectados com BA.4 e BA.5 não é significativamente diferente daquela dos casos infectados com BA.2. Isso sugere que a proteção provavelmente permanece comparável à observada anteriormente.[3]

  • Há algumas novas evidências que sugerem que a BA.4 e a BA.5 escapam substancialmente dos anticorpos neutralizantes induzidos tanto pela vacinação quanto por infecções.[16]

Diagnóstico

  • A precisão diagnóstica da reação em cadeia da polimerase e dos testes rápidos de antígeno não parece ser influenciada pela variante Ômicron.[11]

Terapêutica

  • Espera-se que os tratamentos para a doença grave ou crítica permaneçam efetivos. No entanto, os anticorpos monoclonais podem apresentar neutralização reduzida contra a Ômicron e suas subvariantes com base nos dados disponíveis.[11][17]

Reinfecção

  • Um aumento do risco de reinfecção foi relatado pela África do Sul, Reino Unido, EUA, Dinamarca e Israel.[11][18]

Variantes recombinantes

Diversas variantes recombinantes do SARS-CoV-2 têm sido identificadas ao longo da pandemia, e a grande maioria não confere nenhuma vantagem ao vírus e desaparece com relativa rapidez.[3]

Há relatos de linhagens recombinantes que envolvem a variante Ômicron. Uma combinação da variante Ômicron BA.1 e da variante Delta (também conhecida como recombinante BA.1 x AY.4, XD e XF ou 'deltacron') está sendo monitorada mas, atualmente, as informações disponíveis são limitadas. Há relatos também de uma recombinante da Ômicron BA.1 e BA.2 (conhecida como XE).[3]

Recursos

Os seguintes recursos estão disponíveis:

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