Visão geral da pneumonia

Última revisão: 27 Abr 2022
Última atualização: 08 Set 2020

Introdução

Condição
Descrição

A pneumonia adquirida na comunidade (PAC) é definida como pneumonia adquirida fora do hospital ou de unidades de saúde. Os pacientes com PAC geralmente apresentam sinais e sintomas de infecção do trato respiratório inferior (ou seja, tosse, dispneia, dor torácica pleurítica, escarro mucopurulento, mialgia, febre). [1]Idosos apresentam com maior frequência confusão mental ou agravamento de condições preexistentes, sem sinais torácicos ou febre. [2] Os patógenos bacterianos e virais são a principal causa de PAC; a maioria das infecções é causada por Streptococcus pneumoniae (também conhecido como pneumococo). O julgamento clínico juntamente com uma regra de predição validada para o prognóstico são usados para determinar a necessidade de internação hospitalar em adultos com PAC.[3] A confirmação radiográfica do diagnóstico (presença de nova condensação à radiografia de tórax) deve ser obtida nos pacientes hospitalizados.

A pneumonia hospitalar é uma infecção aguda do trato respiratório inferior que, por definição, é adquirida depois de pelo menos 48 horas de hospitalização e não está incubada no momento da internação.[4] O espectro da pneumonia hospitalar distingue-se atualmente da pneumonia associada à ventilação mecânica (PAVM), sendo esta última definida como um tipo de pneumonia que ocorre mais de 48 horas após a intubação endotraqueal. A pneumonia associada aos cuidados de saúde (PACS) não é mais considerada uma entidade clínica nas diretrizes de 2016 para pneumonia hospitalar e PAVM pela Infectious Diseases Society e pela American Thoracic Society.[4] A pneumonia hospitalar e a PAVM geralmente são causadas por infecção bacteriana, e o início oportuno da terapêutica antimicrobiana apropriada é um fator prognóstico fundamental.[5]

Pneumonia viral (não COVID-19)

Patógenos virais são frequentemente responsáveis pelas pneumonias adquirida na comunidade e hospitalar. A infecção geralmente é causada pelo vírus influenza, vírus sincicial respiratório (VSR) ou vírus parainfluenza; destes, o vírus influenza é a principal causa em adultos.[6] Pacientes nas extremidades etárias e indivíduos com supressão imunológica de qualquer causa, incluindo gravidez, têm aumento do risco de pneumonia viral. As características clínicas são inespecíficas, mas um diagnóstico pode ser feito isolando-se o ácido nucleico viral das secreções do trato respiratório.[7] A coinfecção com um patógeno viral e bacteriano, ou infecção bacteriana superadicionada, está associada ao aumento da virulência bacteriana e maior morbidade e mortalidade. Os microrganismos comumente implicados incluem vírus influenza, VSR, vírus parainfluenza e metapneumovírus humano; complicada por infecção por Staphylococcus aureus, Streptococcus pneumoniae e Haemophilus influenzae.[8]

Uma infecção respiratória aguda causada pelo coronavírus causador da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2). Foi identificada pela primeira vez na cidade de Wuhan, província de Hubei, China, em dezembro de 2019. Desde então, ela se disseminou para muitos países ao redor do mundo, com a Organização Mundial da Saúde declarando estado de pandemia.

Uma infecção do trato respiratório viral aguda causada pelo SARS-CoV.  [9] Foi identificada pela primeira vez na província de Guangdong, no sul da China, em 2002. A epidemia afetou 26 países e resultou em mais de 8000 casos e 774 mortes em 2003. Não houve registro de casos desde 2004. A taxa de letalidade é de, aproximadamente, 10%.[10]

Síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS)

Uma infecção do trato respiratório viral e aguda causada pela MERS-CoV. Foi identificada pela primeira vez na Arábia Saudita em 2012. Houve casos limitados na Península Árabe e países vizinhos, bem como em viajantes provenientes do Oriente Médio ou seus contatos. A taxa de letalidade é de, aproximadamente, 37%.[11]

A pneumonia bacteriana atípica é causada por organismos atípicos que não são detectáveis à coloração de Gram e não podem ser cultivados por meio dos métodos padrão. Os organismos mais comuns são o Mycoplasma pneumoniae, a Chlamydophila pneumoniae e a Legionella pneumophila.[12] Em geral, a pneumonia bacteriana atípica é caracterizada por um complexo de sintomas que inclui cefaleia, febre baixa, tosse e mal-estar. Os sintomas constitucionais costumam predominar sobre os achados respiratórios, podendo haver manifestações extrapulmonares. Na maioria dos casos, a apresentação está no espectro mais brando de pneumonia adquirida na comunidade; no entanto, a infecção pode resultar em pneumonia grave, necessitando de internação em terapia intensiva. Os pacientes hospitalizados com infecção atípica tendem a ser mais jovens e com menor probabilidade de apresentar comorbidades cardiovasculares, renais ou metabólicas do que aqueles com pneumonia não atípica.[13]

O Mycoplasma pneumoniae causa pneumonia adquirida na comunidade e doença do trato respiratório superior. Os pacientes podem apresentar sintomas que incluem tosse persistente não resolvida, febre baixa, cefaleia, rouquidão, erupção cutânea e, raramente, miringite bolhosa. A M pneumoniae ocorre principalmente em crianças e adultos jovens, e geralmente é observado em cenários comunitários de contato próximo (por exemplo, em colégios internos, faculdades e bases militares).[12] Em geral, o diagnóstico é realizado clinicamente, mas pode ser confirmado usando-se testes de amplificação de ácidos nucleicos ou culturas.

A Chlamydia pneumoniae é uma causa comum de infecção aguda do trato respiratório em todas as faixas etárias, em todo o mundo. A infecção por C pneumoniae representa cerca de 10% dos casos de pneumonia adquirida na comunidade.[14] As características clínicas são inespecíficas e amplas, mas classicamente incluem febre e tosse, precedida por sintomas do trato respiratório superior.[15] A pneumonia provocada por C pneumoniae não pode ser diferenciada clinicamente de outros organismos que causam pneumonia atípica, especialmente Mycoplasma pneumoniae.[16] O diagnóstico pode ser confirmado usando-se testes de amplificação de ácidos nucleicos.

A pneumonia por Legionella, conhecida como doença do legionário, ocorre quando a bactéria é inalada (ou raramente aspirada) para dentro dos pulmões. Quase todos os casos de doença do legionário adquirida na comunidade estão associados a aerossóis contaminados produzidos por sistemas de água fabricados pelo homem.[17] A manifestação inclui sintomas respiratórios, como tosse (pode não ser produtiva) e dispneia, febre, calafrios e dor torácica. Os outros sintomas incluem cefaleia, náuseas, vômitos, dor abdominal ou diarreia. A infecção por Legionella pneumophila pode resultar em pneumonia grave, necessitando de internação em unidade de terapia intensiva.[18]

A pneumonia por Pneumocystis (PPC) é uma infecção pulmonar causada pelo organismo fúngico Pneumocystis jirovecii (antes conhecido como Pneumocystis carinii). Geralmente, ela causa doença clínica em pacientes gravemente imunocomprometidos, como indivíduos infectados pelo HIV com contagem de células CD4+ <200 células/microlitro, pacientes submetidos a transplante de células hematopoiéticas, pacientes submetidos a transplante de órgãos sólidos ou pacientes tratados cronicamente com terapias imunossupressoras.

A coccidioidomicose é uma infecção fúngica causada pela espécie endêmica Coccidioides, encontrada em áreas do sudoeste dos EUA, norte do México e áreas limitadas da América Central e do Sul. A infecção é adquirida pela inalação de artrósporos no ar; pode ser assintomática ou causar síndrome pulmonar aguda e crônica e, raramente, infecção extrapulmonar.[19]

A aspergilose é uma infecção causada pela inalação dos conídios aerossolizados (esporos) do fungo Aspergillus, encontrado de forma onipresente no solo. A aspergilose afeta principalmente pacientes imunocomprometidos e é rara em indivíduos imunocompetentes. O espectro clínico varia de acordo com o grau de imunocomprometimento, variando da colonização à doença invasiva, com possível envolvimento dos pulmões, seios nasais, cérebro e pele. A aspergilose pulmonar invasiva tem uma apresentação inespecífica, com tosse, dor torácica pleurítica e febre. É necessário um alto índice de suspeita para o diagnóstico precoce.[20] O aspergiloma se forma em cavidades pulmonares preexistentes, geralmente secundárias à tuberculose, e geralmente é assintomático.[21]

A aspergilose broncopulmonar alérgica (ABPA) é uma reação de hipersensibilidade à colonização brônquica por Aspergillus fumigatus. Os pacientes geralmente apresentam diagnóstico prévio de atopia, asma ou fibrose cística.[22] Apresenta-se como asma complicada por obstrução brônquica, febre, mal-estar, expectoração de rolhas de muco amarronzado, eosinofilia sérica periférica e hemoptise. Se não tratada, a ABPA pode causar bronquiectasia, fibrose e comprometimento respiratório.

A aspiração consiste na inalação de material estranho para o interior das vias aéreas para além das pregas vocais.[23] Ela pode ser classificada como pneumonite por aspiração ou pneumonia por aspiração. A pneumonite por aspiração é uma lesão química que ocorre após a aspiração de conteúdo gástrico.[24] Os fatores de risco fortes incluem uma diminuição do nível de consciência de qualquer causa, o que pode levar a um reflexo inadequado da tosse e a um comprometimento do fechamento da glote; disfagia; anestesia geral; tubo de intubação ou traqueostomia; e idade avançada.[25]

A pneumonia por aspiração é decorrente da inalação de conteúdo orofaríngeo nas vias aéreas inferiores, o que causa pneumonite química, lesão pulmonar e a infecção bacteriana. Ela ocorre comumente em pacientes com estado mental alterado que apresentam diminuição no reflexo faríngeo ou de deglutição. [26] Diagnosticada com base em sinais ou sintomas clínicos de pneumonia (por exemplo, tosse, dispneia, febre) e uma história de, ou fatores de risco para, aspiração.

A pneumonia neonatal pode resultar da aspiração, geralmente de mecônio, que causa uma reação inflamatória nas vias aéreas. Os bebês nascidos com líquido amniótico tinto de mecônio estão sob risco e geralmente apresentam desconforto respiratório logo após o nascimento.[27]

A bronquiolite obliterante com pneumonia em organização (BOPO) é um distúrbio inflamatório dos bronquíolos distais e dos alvéolos.[28] Tem achados radiográficos, características histológicas e resposta aos corticosteroides distintos (ao contrário da pneumonia intersticial usual). O tipo mais comum é a bronquiolite obliterante com pneumonia em organização (BOPO) idiopática; outros tipos incluem a BOPO nodular focal, pós-infecção, relacionada a medicamentos, reumatológica, imunológica, transplante de órgãos, radioterapia, ambiental e BOPO diversas. Na maioria dos casos, a etiologia é desconhecida; o termo pneumonia em organização criptogênica (POC) pode ser aplicado nesses casos. A POC se refere a um processo inflamatório organizado nos alvéolos de causa desconhecida.[29]

A pneumonite por hipersensibilidade (PH), também conhecida por alveolite alérgica extrínseca, é o resultado de uma inflamação imunológica não mediada por IgE. A PH é causada pela inalação repetida de proteínas não humanas, de origem vegetal ou animal, ou pode ser o resultado de uma substância química conjugada a uma proteína humana das vias aéreas, como a albumina. A inflamação da PH se manifesta nos alvéolos e nos bronquíolos distais. As diretrizes diagnósticas recentes da ATS/JRS/ALAT classificam os pacientes como portadores de PH fibrótica ou não fibrótica. A classificação é determinada pela presença ou ausência predominante de fibrose no exame radiográfico e/ou histopatológico.[30] Muitos casos de PH são causados por exposição ocupacional.[31]

A dispneia, também conhecida como dificuldade de respirar ou falta de ar, é uma sensação subjetiva de desconforto respiratório. A etiologia é ampla, variando de processos leves e autolimitados até condições de risco de vida. As doenças dos sistemas cardiovascular, pulmonar e neuromuscular são as etiologias mais comuns. O diagnóstico diferencial pode ser restringido fazendo uma distinção entre dispneia aguda, subaguda e crônica, que está presente por mais de 4 semanas.[32] A dispneia é uma característica diagnóstica fundamental da pneumonia.

A tosse é um sintoma respiratório comum, que pode representar um desafio diagnóstico devido à sua associação com uma variedade de condições.[33] A tosse pode ser classificada de acordo com a sua duração. Uma tosse aguda dura menos de 3 semanas e é mais comum devido a uma infecção viral do trato respiratório superior. A tosse subaguda dura entre 3 e 8 semanas e geralmente é de origem pós-infecciosa.[34] As etiologias comuns da tosse crônica (tosse que persiste por >8 semanas) em adultos não fumantes com uma radiografia torácica normal que não usam inibidores da enzima conversora da angiotensina (ECA) incluem síndrome tussígena das vias aéreas superiores, asma, doença do refluxo gastroesofágico e bronquite eosinofílica não asmática.[35][36] Pacientes com tosse crônica (geralmente produtiva de escarro), história de febre, mal-estar e dor torácica, e com achados de exames de macicez à percussão, murmúrios vesiculares reduzidos e presença de estertores, devem fazer exames para pneumonia.

O infiltrado pulmonar persistente ocorre quando uma substância mais densa que o ar (por exemplo, pus, edema, sangue, surfactante, proteínas ou células) permanece no parênquima pulmonar. Pneumonias sem resolução ou de resolução lenta constituem as categorias comuns mais amplas de infiltrados pulmonares persistentes.[37] A persistência é atribuída a defeitos nos mecanismos de defesa do hospedeiro, à presença de organismos incomuns ou resistentes ou a doenças que mimetizam a pneumonia.[38]

Colaboradores

Autores

Editorial Team

BMJ Publishing Group

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