Prevenção primária

As medidas preventivas a seguir são recomendadas para pessoas em uma área afetada por um surto:[74]

  • Praticar higiene cuidadosa (por exemplo, lavar as mãos com água e sabão, produtos de limpeza para mãos à base de álcool ou solução de cloro)

  • Evitar contato com fluidos corporais e não manusear itens que tenham entrado em contato com os fluidos corporais de uma pessoa infectada (por exemplo, roupas, dispositivos médicos, agulhas)

  • Evitar rituais fúnebres que requeiram o manuseio do corpo de alguém que tenha morrido em decorrência de infecção suspeita ou confirmada pelo vírus Ebola

  • Evitar contato com primatas não humanos e morcegos, incluindo fluidos corporais ou carne crua preparada desses animais

  • Pessoas retornando de viagem (incluindo profissionais da saúde) devem seguir as políticas locais de vigilância e monitorar o seu estado de saúde por 21 dias e procurar atendimento médico se surgirem sintomas, especialmente febre.

Profissionais da saúde que podem ter sido expostos a pacientes infectados devem seguir estas etapas:

  • Usar roupas de proteção

  • Praticar medidas adequadas de esterilização e controle da infecção

  • Isolar pacientes com suspeita de infecção uns dos outros se possível, e pacientes com diagnóstico confirmado daqueles suspeitos de ter contraído a infecção

  • Evitar contato direto com os corpos de pessoas que faleceram em decorrência de infecção confirmada ou suspeita. Durante a epidemia, o contato direto com qualquer cadáver deve ser evitado

  • Notificar as autoridades de saúde caso você tenha contato direto com os fluidos corporais de um paciente infectado.

Se houver suspeita de infecção com base no rastreamento inicial, será necessário o isolamento imediato antes de realizar investigação adicional. Isso é crucial para reduzir o contato com outros pacientes e profissionais da saúde enquanto o paciente é investigado. As medidas de isolamento devem ser continuadas até que o paciente apresente resultado de teste negativo.[75]

O maior fator de risco dos profissionais da saúde ao cuidar de pacientes infectados é tocar inadvertidamente a própria face ou o pescoço sob o protetor de face durante o cuidado dos pacientes e retirar o equipamento de proteção individual (EPI). Os profissionais da saúde devem entender os seguintes princípios básicos do uso do EPI:[75]

  • Colocação da vestimenta: o EPI deve ser vestido corretamente, na ordem adequada, antes da entrada na área de tratamento de pacientes. Como o EPI não pode ser alterado uma vez dentro da área de cuidado do paciente, devem ser tomadas precauções para garantir que o equipamento tenha sido colocado da forma mais confortável possível antes de entrar na área. Nenhuma parte da pele deve ficar exposta. O ato de se vestir deve ser diretamente monitorado por um observador treinado, e uma avaliação final realizada antes de entrar na área de cuidado do paciente

  • Durante o tratamento de pacientes: o EPI deve permanecer no lugar e ser usado corretamente durante a exposição a áreas possivelmente contaminadas. O EPI não deve ser ajustado durante os cuidados com o paciente. Os profissionais da saúde devem realizar desinfecção frequente das mãos com utilização de luvas com produto de limpeza para as mãos à base de álcool ou solução de cloro, principalmente depois de manipular fluidos corporais. Se ocorrer um rompimento parcial ou total do EPI (por exemplo, luvas separadas das mangas deixando a pele exposta, um rasgo na luva externa, uma picada de agulha) durante os cuidados com o paciente, o profissional da saúde deverá ir imediatamente para a área de remoção e descarte da vestimenta para avaliar a exposição e implementar o plano de exposição da unidade, se indicado. É preciso que as instruções de ação imediata a serem adotadas em caso de exposição de alto risco (lesão provocada por agulha e respingo na membrana mucosa) sejam claras para todos os profissionais de saúde. Após a remoção e o descarte seguros da vestimenta, deve-se realizar uma rápida avaliação dos riscos e considerar a profilaxia pós-exposição (PPE).[76]

  • Remoção e descarte da vestimenta: a remoção do EPI usado é um processo de alto risco que requer um procedimento estruturado, um observador treinado e uma área designada para remoção, para garantir a proteção. O EPI deve ser retirado lenta e deliberadamente na sequência correta para reduzir a possibilidade de autocontaminação ou outra exposição. Um processo gradual deve ser desenvolvido e usado durante o treinamento e a prática diária.com.bmj.content.model.Caption@643bbeae[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Profissional da saúde usando equipamento de proteção individual em um centro de tratamento de Ebola na Serra Leoa, 2014Do acervo pessoal de Chris Lane, MSc (Public Health England/Organização Mundial da Saúde); usada com permissão [Citation ends].

A importância da supervisão por um "colega" quando estiver dentro da área de cuidados e durante as atividades de colocar e tirar vestimenta, para garantir uma prática segura não deve ser subestimada, com orientação de monitores independentes se disponível. CDC: the buddy system external link opens in a new window

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) elaboram orientações detalhadas sobre equipamento de proteção individual (EPI):

Vacinas

  • Vacina contra o ebolavirus do Zaire, vivo (Ervebo®)

    • Também conhecida como vacina rVSV-ZEBOV ou rVSV∆G-ZEBOV-GP.

    • Uma vacina de vírus vivo atenuado que contém o vírus da estomatite vesicular modificado para conter uma proteína do ebolavirus do Zaire.

    • A Food and Drug Administration dos EUA e a European Medicines Agency aprovaram a vacina para prevenção do ebolavirus do Zaire em adultos sob risco. A aprovação europeia é uma autorização condicional.

    • A vacina é administrada em dose única por via intramuscular. As reações adversas comuns incluem reações no local da injeção, artralgia, mialgia, erupção cutânea, cefaleia, febre e fadiga.

    • Gestantes e lactantes devem receber vacinação com a vacina de vírus vivo contra o Zaire ebolavirus durante um surto ativo causado pelo Zaire ebolavirus nas áreas afetadas, no contexto de uma pesquisa rigorosa ou de acordo com um protocolo de uso compassivo, com consentimento informado.[77]

    • O estudo Sierra Leone Trial to Introduce a Vaccine against Ebola (STRIVE), um ensaio clínico combinado de fase II e III que avalia a segurança e a eficácia da rVSV-ZEBOV, constatou que não houve relatos de casos de Ebola nos 7998 participantes que foram vacinados.[78] Realizou-se na Guiné um estudo aberto randomizado por agrupamento ("cluster") sobre vacinação em anel no qual os contatos de um caso suspeito de Ebola foram vacinados com uma única dose intramuscular de rVSV-ZEBOV. Os pacientes no grupo de tratamento receberam a vacina imediatamente, ao passo que a vacinação foi adiada em 21 dias no grupo de controle. O estudo revelou que a rVSV-ZEBOV tem uma alta eficácia na proteção. Nenhum paciente que recebeu a vacina desenvolveu a infecção pelo vírus Ebola 10 dias ou mais após a randomização no grupo de tratamento imediato; porém, ocorreram casos nos pacientes não vacinados do grupo de comparação.[79]

  • Vacina Ad26.ZEBOV/MVA-BN-Filo (Zabdeno®/Mvabea®)

    • Usa uma estratégia de reforço básico para aumentar a imunogenicidade e envolve o uso de dois vetores virais distintos que são administrados como doses diferentes. O componente Ad26.ZEBOV do esquema é uma vacina monovalente baseada em um vetor do sorotipo 26 do adenovírus 26 (Ad26) que expressa a glicoproteína EBOV e foi desenvolvido para fornecer imunidade adquirida ativa específica contra o vírus Ebola do Zaire. O componente MVA-BN-Filo do esquema é uma vacina multivalente baseada no vetor da vacina Ankara modificado (MVA) que expressa a EBOV, do vírus do Sudão, e glicoproteínas do vírus de Marburg e a nucleoproteína do vírus de Tai Forest, e foi desenvolvida para fornecer imunidade aos Ebola vírus do Sudão, de Tai Forest e de Marburg.[80]

    • A European Medicines Agency aprovou a vacina para a prevenção de infecções pelo ebolavirus do Zaire em crianças ≥1 ano de idade e adultos. A vacina foi autorizada em circunstâncias excepcionais, e não é adequada para resposta a surtos quando for necessária proteção imediata.

    • A vacina é administrada como um ciclo heterólogo com 2 doses, com um intervalo de 8 semanas. As reações adversas comuns incluem reações no local da injeção, artralgia, mialgia, cefaleia, febre e fadiga.

    • Não há dados sobre o uso da vacina Ad26.ZEBOV/MVA-BN-Filo durante a gestação; no entanto, a vacinação não deve ser protelada quando houver risco claro de exposição.

    • Os ensaios clínicos de fase 3 estão concluídos ou ainda não foram publicados, ou estão em andamento.

  • Vacina ChAd3-ZEBOV

    • Um vetor experimental do adenovírus derivado de chimpanzé com um gene do vírus Ebola inserido, ainda em ensaios clínicos de fase inicial. Um estudo de fase II, randomizado e controlado por placebo constatou resposta de anticorpos à vacinação com a ChAd3-ZEBOV ou a rVSV-ZEBOV em 71% a 84% dos receptores da vacina ativa contra 3% dos receptores de placebo em 1 mês. As respostas foram mantidas, em grande parte, aos 12 meses.[81]

  • Há outras vacinas em desenvolvimento.

Prevenção secundária

A infecção pelo vírus Ebola é uma doença de notificação compulsória.

Se houver suspeita de infecção, o paciente deve ser colocado em isolamento e todos os profissionais da saúde em contato com ele devem usar equipamento de proteção individual. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) elaboram orientações detalhadas sobre equipamento de proteção individual (EPI):

O rastreamento dos contatos (por exemplo, família, amigos, colegas de trabalho) é essencial. Pessoas que foram expostas ao vírus Ebola nos últimos 21 dias e que estão assintomáticas devem ser monitoradas durante o período de incubação para garantir o rápido reconhecimento dos sintomas seguido por isolamento imediato. A OMS elaborou orientações sobre o rastreamento dos contatos:

Profissionais da saúde com suspeita de infecção devem ser isolados e tratados da mesma forma que outros pacientes até que um diagnóstico negativo seja confirmado.[140] Em caso de exposição a fluidos corporais de um paciente com suspeita de infecção, a pessoa deverá lavar imediatamente as superfícies da pele afetadas com água e sabão, além de irrigar as membranas mucosas com grandes volumes de água.

Práticas de enterro seguras são essenciais, porém nem sempre culturalmente aceitas, e isso continua a ser um desafio.[71]

WHO: how to conduct safe and dignified burial of a patient who has died from suspected or confirmed Ebola virus disease external link opens in a new window

Profilaxia pós-exposição (PPE):

  • É um campo em rápida transformação.[192] Foi proposta uma estrutura útil que adota uma abordagem estratificada para risco de exposição.

  • A PPE é recomendado em pacientes de alto risco (por exemplo, pessoas em contato com a pele lesionada ou as membranas mucosas de um paciente infectado (vivo ou falecido) ou respectivos fluidos corporais, uma lesão por objetos pérfuro-penetrantes ou contato com roupas ou luvas contaminadas). Pode-se considerar também em pacientes com contato somente com a pele intacta de um paciente infectado (vivo ou falecido) ou respectivos fluidos corporais. Entre as opções a considerar estão: imunoterapia passiva com anticorpos monoclonais (por exemplo, ZMapp, MIL77), agentes antivirais (por exemplo, favipiravir, remdesivir, BCX4430) ou vacinação (por exemplo, rVSV-ZEBOV), dependendo das circunstâncias específicas do paciente.[193]

  • Além destas intervenções, é necessário apoio psicológico para os profissionais da saúde expostos a patógenos perigosos.[194]

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