As gamopatias monoclonais representam um amplo espectro de doenças relacionadas.[1]Rajkumar SV, Dispenzieri A, Kyle RA. Monoclonal gammopathy of undetermined significance, Waldenstrom macroglobulinemia, AL amyloidosis, and related plasma cell disorders: diagnosis and treatment. Mayo Clin Proc. 2006 May;81(5):693-703.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16706268?tool=bestpractice.com
[2]International Myeloma Working Group. Criteria for the classification of monoclonal gammopathies, multiple myeloma and related disorders: a report of the International Myeloma Working Group. Br J Haematol. 2003 Jun;121(5):749-57.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12780789?tool=bestpractice.com
O denominador comum é a presença de uma proteína monoclonal no soro ou na urina, que pode estar na forma de imunoglobulina intacta, fragmentos de imunoglobulina e/ou cadeias leves livres. Isso será acompanhado pela presença de plasmócitos monoclonais na medula óssea (plasmocitoma ósseo), em tecidos moles (plasmocitoma extramedular) ou na circulação periférica (tipicamente em estágios mais avançados da doença).
Plasmócitos e proteínas monoclonais
Os plasmócitos são células efetoras da linhagem de células B terminalmente diferenciadas (células especializadas que normalmente não se proliferam).[3]Fairfax KA, Kallies A, Nutt SL, et al. Plasma cell development: from B-cell subsets to long-term survival niches. Semin Immunol. 2008 Feb;20(1):49-58.
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[4]McHeyzer-Williams LJ, McHeyzer-Williams MG. Antigen-specific memory B cell development. Annu Rev Immunol. 2005;23:487-513.
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[5]Radbruch A, Muehlinghaus G, Luger EO, et al. Competence and competition: the challenge of becoming a long-lived plasma cell. Nat Rev Immunol. 2006 Oct;6(10):741-50.
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[6]Shapiro-Shelef M, Calame K. Regulation of plasma-cell development. Nat Rev Immunol. 2005 Mar;5(3):230-42.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15738953?tool=bestpractice.com
Eles são os mediadores primários da imunidade humoral, secretando imunoglobulinas antígeno-específicas. As anormalidades de plasmócitos são responsáveis por uma variedade de doenças autoimunes e neoplasias de plasmócitos. A evolução clonal de um ou mais plasmócitos prepara o cenário para o desenvolvimento de gamopatias monoclonais.[3]Fairfax KA, Kallies A, Nutt SL, et al. Plasma cell development: from B-cell subsets to long-term survival niches. Semin Immunol. 2008 Feb;20(1):49-58.
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Os plasmócitos normalmente secretam uma imunoglobulina intacta que é composta por 2 cadeias leves idênticas e 2 cadeias pesadas idênticas. Existem 5 classes principais de cadeias pesadas que correspondem às classes principais de imunoglobulinas: mu (IgM), delta (IgD), gama (IgG), alfa (IgA) e épsilon (IgE). Em cada uma das moléculas de imunoglobulina, as cadeias pesadas se ligam a uma das 2 cadeias leves (kappa ou lambda), mas não a ambas. As cadeias pesadas, que contêm 4 ou 5 domínios, e as cadeias leves, que contêm 2 domínios, se ligam covalentemente umas às outras através de pontes dissulfeto.[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Estrutura de uma imunoglobulinaDo acervo pessoal do Dr. Kumar [Citation ends].
As proteínas monoclonais são imunoglobulinas anormais, imunologicamente homogêneas, ou partes de imunoglobulinas, produzidas por um único clone de plasmócitos. Elas podem ser o resultado de uma neoplasia linfoide subjacente, ser parte de uma expansão clonal de plasmócitos sem provocar sintomas (por exemplo, gamopatia monoclonal de significado indeterminado) ou causar complicações com risco de vida (por exemplo, amiloidose primária).[7]Kumar S, Dispenzieri A, Katzmann JA, et al. Serum immunoglobulin free light-chain measurement in primary amyloidosis: prognostic value and correlations with clinical features. Blood. 2010 Dec 9;116(24):5126-9.
http://bloodjournal.hematologylibrary.org/content/116/24/5126.long
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20798235?tool=bestpractice.com
Avaliação de proteínas monoclonais
A eletroforese de proteínas é realizada para detectar e identificar proteínas monoclonais no soro e na urina.[8]Katzmann JA, Dispenzieri A. Screening algorithms for monoclonal gammopathies. Clin Chem. 2008 Nov;54(11):1753-5.
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[9]Keren DF, Bocsi G, Billman BL, et al. Laboratory detection and initial diagnosis of monoclonal gammopathies. Arch Pathol Lab Med. 2022 May 1;146(5):575-90.
https://aplm.kglmeridian.com/view/journals/arpa/146/5/article-p575.xml
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A quantificação das imunoglobulinas é obtida por nefelometria. Cadeias leves livres de imunoglobulinas no soro são avaliadas usando anticorpos específicos para a parte de cadeia leve de imunoglobulinas.
A espectrometria de massa é cada vez mais utilizada para a detecção e quantificação de proteínas monoclonais no soro e na urina.[10]Murray DL, Puig N, Kristinsson S, et al. Mass spectrometry for the evaluation of monoclonal proteins in multiple myeloma and related disorders: an International Myeloma Working Group Mass Spectrometry Committee Report. Blood Cancer J. 2021 Feb 1;11(2):24.
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[11]Murray D, Kumar SK, Kyle RA, et al. Detection and prevalence of monoclonal gammopathy of undetermined significance: a study utilizing mass spectrometry-based monoclonal immunoglobulin rapid accurate mass measurement. Blood Cancer J. 2019 Dec 13;9(12):102.
https://www.nature.com/articles/s41408-019-0263-z
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/31836698?tool=bestpractice.com
Expansão clonal de plasmócitos
A expansão clonal de plasmócitos é a anormalidade subjacente entre as gamopatias monoclonais. Essas células podem ser encontradas na medula óssea, nos tecidos moles ou na circulação periférica. Os plasmócitos são normalmente demonstrados em exames da medula óssea, em que a presença de plasmócitos clonais pode ou não ser acompanhada por um aumento absoluto na proporção de plasmócitos. Embora os plasmócitos sejam identificados pela sua marcação de superfície para CD138 (sindecam) por imuno-histoquímica, a demonstração da clonalidade depende da restrição de cadeia leve e do excesso de plasmócitos que expressam kappa ou lambda e resultam em um desvio da proporção normal entre kappa e lambda.[12]O'Connell FP, Pinkus JL, Pinkus GS. CD138 (syndecan-1), a plasma cell marker immunohistochemical profile in hematopoietic and nonhematopoietic neoplasms. Am J Clin Pathol. 2004 Feb;121(2):254-63.
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A proporção distorcida pode ser demonstrada por imuno-histoquímica, citometria de fluxo ou reação em cadeia da polimerase realizadas em biópsia ou aspirado de medula óssea.
As técnicas de citometria de fluxo podem ser usadas para a detecção de um pequeno número de plasmócitos clonais (típicos da maioria das gamopatias monoclonais) em aspirado de medula óssea e para a caracterização imunofenotípica de plasmócitos anormais.[13]Witzig TE, Kimlinger TK, Ahmann GJ, et al. Detection of myeloma cells in the peripheral blood by flow cytometry. Cytometry. 1996 Jun 15;26(2):113-20.
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[14]Albarracin F, Fonseca R. Plasma cell leukemia. Blood Rev. 2011 May;25(3):107-12.
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[15]Lin P, Owens R, Tricot G, et al. Flow cytometric immunophenotypic analysis of 306 cases of multiple myeloma. Am J Clin Pathol. 2004 Apr;121(4):482-8.
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[16]Paiva B, Vidriales MB, Cervero J, et al. Multiparameter flow cytometric remission is the most relevant prognostic factor for multiple myeloma patients who undergo autologous stem cell transplantation. Blood. 2008 Nov 15;112(10):4017-23.
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[17]Rawstron AC, Orfao A, Beksac M, et al. Report of the European Myeloma Network on multiparametric flow cytometry in multiple myeloma and related disorders. Haematologica. 2008 Mar;93(3):431-8.
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[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Plasmócitos monoclonaisDo acervo pessoal do Dr. Kumar [Citation ends].
O mieloma múltiplo e a leucemia de plasmócitos estão associados a um grande número de plasmócitos malignos no sangue e na medula óssea.[18]Jelinek T, Bezdekova R, Zihala D, et al. More than 2% of circulating tumor plasma cells defines plasma cell leukemia-like multiple myeloma. J Clin Oncol. 2023 Mar 1;41(7):1383-92.
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Epidemiologia
A gamopatia monoclonal de significado indeterminado (MGUS) é a gamopatia monoclonal mais comum e ocorre em aproximadamente 2% a 3% da população branca com 50 anos ou mais.[19]Wadhera RK, Rajkumar SV. Prevalence of monoclonal gammopathy of undetermined significance: a systematic review. Mayo Clin Proc. 2010 Oct;85(10):933-42.
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[20]Kyle RA, Larson DR, Therneau TM, et al. Long-term follow-up of monoclonal gammopathy of undetermined significance. N Engl J Med. 2018 Jan 18;378(3):241-9.
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[21]Landgren O, Graubard BI, Katzmann JA, et al. Racial disparities in the prevalence of monoclonal gammopathies: a population-based study of 12,482 persons from the National Health and Nutritional Examination Survey. Leukemia. 2014 Jul;28(7):1537-42.
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A prevalência aumenta com a idade e, geralmente, é maior nos homens, em comparação com as mulheres, e em pessoas com mais de 70 anos de idade.[22]Kyle RA, Therneau TM, Rajkumar SV, et al. Prevalence of monoclonal gammopathy of undetermined significance. N Engl J Med. 2006 Mar 30;354(13):1362-9.
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa054494
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[23]Kyle RA, Rajkumar SV. Monoclonal gammopathies of undetermined significance. Best Pract Res Clin Haematol. 2005;18(4):689-707.
https://www.doi.org/10.1016/j.beha.2005.01.025
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As taxas de prevalência variam de acordo com fatores geográficos e raciais, com taxas mais baixas na Ásia em comparação com as taxas na Europa e nas Américas do Norte e do Sul, e taxas de prevalência mais altas entre pessoas negras em comparação com pessoas brancas.[24]Landgren O, Katzmann JA, Hsing AW, et al. Prevalence of monoclonal gammopathy of undetermined significance among men in Ghana. Mayo Clin Proc. 2007 Dec;82(12):1468-73.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18053453?tool=bestpractice.com
Uma prevalência total de gamopatia monoclonal de 43% foi relatada em uma coorte dos EUA (com alto risco de mieloma múltiplo; idade mediana de 56 anos) examinada por espectrometria de massa quantitativa.[25]El-Khoury H, Lee DJ, Alberge JB, et al. Prevalence of monoclonal gammopathies and clinical outcomes in a high-risk US population screened by mass spectrometry: a multicentre cohort study. Lancet Haematol. 2022 May;9(5):e340-9.
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Observou-se um aumento da prevalência entre familiares de primeiro grau de pacientes com gamopatias monoclonais.[26]Vachon CM, Kyle RA, Therneau TM, et al. Increased risk of monoclonal gammopathy in first-degree relatives of patients with multiple myeloma or monoclonal gammopathy of undetermined significance. Blood. 2009 Jul 23;114(4):785-90.
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[27]Landgren O, Kristinsson SY, Goldin LR, et al. Risk of plasma cell and lymphoproliferative disorders among 14621 first-degree relatives of 4458 patients with monoclonal gammopathy of undetermined significance in Sweden. Blood. 2009 Jul 23;114(4):791-5.
https://ashpublications.org/blood/article/114/4/791/26102/Risk-of-plasma-cell-and-lymphoproliferative
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19182202?tool=bestpractice.com
Doenças associadas
Outras condições em que uma proteína monoclonal pode ser detectada no soro e/ou na urina incluem:[28]Corbingi A, Innocenti I, Tomasso A, et al. Monoclonal gammopathy and serum immunoglobulin levels as prognostic factors in chronic lymphocytic leukaemia. Br J Haematol. 2020 Sep;190(6):901-8.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32712965?tool=bestpractice.com
[29]Yan Y, Yuan B, Qiu T, et al. Monoclonal gammopathy defines distinct clinical subsets in chronic lymphocytic leukemia across therapeutic eras. Blood Adv. 2025 Dec 23;9(24):6279-91.
https://ashpublications.org/bloodadvances/article/9/24/6279/547090/Monoclonal-gammopathy-defines-distinct-clinical
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/40902084?tool=bestpractice.com
[30]Caviglia GP, Sciacca C, Abate ML, et al. Chronic hepatitis C virus infection and lymphoproliferative disorders: mixed cryoglobulinemia syndrome, monoclonal gammopathy of undetermined significance, and B-cell non-Hodgkin lymphoma. J Gastroenterol Hepatol. 2015 Apr;30(4):742-7.
https://iris.unito.it/handle/2318/156763
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[31]Ali YM, Urowitz MB, Ibanez D, et al. Monoclonal gammopathy in systemic lupus erythematosus. Lupus. 2007;16(6):426-9.
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[32]Yang Y, Chen L, Jia Y, et al. Monoclonal gammopathy in rheumatic diseases. Clin Rheumatol. 2018 Jul;37(7):1751-62.
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[33]Brito-Zerón P, Retamozo S, Gandía M, et al. Monoclonal gammopathy related to Sjögren syndrome: a key marker of disease prognosis and outcomes. J Autoimmun. 2012 Aug;39(1-2):43-8.
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doenças linfoproliferativa, onde as células clonais de linhagem B secretam uma proteína monoclonal (por exemplo, leucemia linfocítica crônica, linfoma não Hodgkin, gamopatias monoclonais pós-transplante)
doenças infecciosas ou inflamatórias associadas a um desenvolvimento transiente de vários clones de populações reativas de células B/plasmócitos (por exemplo, lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatoide, artrite psoriática, síndrome de Sjögren).
A infecção viral crônica pode predispor a um aumento do risco de gamopatia monoclonal (por exemplo, infecção pelo vírus da hepatite C, infecção por HIV).[34]Hermouet S, Corre I, Gassin M, et al. Hepatitis C virus, human herpesvirus 8, and the development of plasma-cell leukemia. N Engl J Med. 2003 Jan 9;348(2):178-9.
https://www.nejm.org/doi/10.1056/NEJM200301093480219
[35]O'Donnell E. Exploring the role of viral hepatitis in plasma cell disorders. Haematologica. 2024 Jan 1;109(1):19-20.
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10772513
[36]Mailankody S, Landgren O. HIV, EBV, and monoclonal gammopathy. Blood. 2013 Oct 24;122(17):2924-5.
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