Etiologia

Os diagnósticos diferenciais para dor abdominal pediátrica são amplos e abrangem quase todos os sistemas de órgãos. Além disso, pode ser particularmente difícil distinguir uma dor abdominal crônica de uma dor aguda em crianças. Embora as etiologias mais comuns não representem risco de vida imediato, a capacidade de diagnosticar patologias urgentes permanece essencial. A anamnese e o exame físico completos, bem como o entendimento sobre as doenças mais comuns que afetam a faixa etária da criança em questão, são essenciais.

Gastrointestinal

A etiologia mais comum de dor abdominal em crianças tem origem gastrointestinal, abrangendo causas infecciosas, congênitas, funcionais e mecânicas.

Constipação

  • Uma condição comum, com prevalência conjunta registrada em 9.5%.[1]

  • A constipação infantil se caracteriza normalmente por evacuações intestinais infrequentes, fezes volumosas e defecação difícil ou dolorosa.[2]

  • Os sintomas geralmente resultam de uma alimentação pobre em nutrientes, com baixo teor de fibras, e pouco consumo de água, o que eleva o nível de reabsorção cólica de água, causando o endurecimento das fezes. Fatores de risco adicionais incluem predisposição genética, infecção, estresse, obesidade, baixo peso ao nascer, paralisia cerebral, espinha bífida e dificuldades de aprendizagem.

  • A constipação inicia como um problema agudo, mas pode evoluir para impactação fecal e constipação crônica.

  • Ela tende a se desenvolver durante três estágios da infância: desmame (lactentes), treinamento esfincteriano (crianças pequenas), início da vida escolar (crianças maiores).

Apendicite

  • Desenvolve-se quando o lúmen do apêndice é obstruído por fezes, bário, alimentos ou parasitas.

  • Pode ocorrer em todas as faixas etárias, mas é rara em lactentes. Um estudo de coorte realizado na Suécia constatou que 2.5% das crianças tinham tido apendicite antes dos 18 anos de idade.[3]

  • Caso não seja tratada, a apendicite aguda evolui para isquemia, necrose e, finalmente, perfuração. A taxa global de perfuração é de, aproximadamente, 30%.[4] O risco de perfuração aumenta com a demora da apendicectomia.[5]com.bmj.content.model.assessment.Caption@6f0a863b[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Apêndice necróticoDo acervo de Dr. KuoJen Tsao; usado com permissão [Citation ends].com.bmj.content.model.assessment.Caption@6e30ba3d[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Tomografia computadorizada (TC) revelando fecalito (seta branca) fora do lúmen do apêndice consistente com apêndice perfuradoDo acervo de Dr. KuoJen Tsao; usado com permissão [Citation ends].

Gastroenterite

  • Pode ser causada por infecção viral crônica ou aguda (especialmente, pelo rotavírus), ou por infecção bacteriana ou parasitária.

  • Causa dor abdominal de tipo cólica, vaga, em associação com febre, vômitos e diarreia.

  • A gastroenterite eosinofílica, definida como uma condição que afeta o trato gastrointestinal com inflamação rica em eosinófilos sem causa conhecida para a eosinofilia, pode resultar em dor abdominal significativa.[6]

  • A síndrome hemolítico-urêmica, caracterizada por anemia hemolítica microangiopática, trombocitopenia e nefropatia, pode decorrer de uma complicação da gastroenterite causada pela Escherichia coli produtora de verotoxina. A dor abdominal é um sintoma inicial comum.[7]

Intussuscepção

  • Ocorre quando há invaginação de um segmento proximal do intestino para dentro do lúmen de um segmento distal adjacente. Na maioria dos casos, a intussuscepção localiza-se na área ileocecal.com.bmj.content.model.assessment.Caption@5d077f6a[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Intussuscepção: os vasos sanguíneos ficam presos entre as camadas do intestino, o que causa redução do suprimento de sangue, edema, estrangulação intestinal e gangrena. Por conseguinte, podem ocorrer sepse, choque e óbito.Criado pelo BMJ Knowledge Centre [Citation ends].

  • Geralmente, ocorre em crianças entre 3 e 12 meses de idade. O pico de incidência ocorre dos 5 aos 7 meses de idade.[8]

  • Em lactentes nessa faixa etária que apresentam cólica abdominal, flexão das pernas, febre, letargia e vômitos, deve-se levantar a suspeita de intussuscepção.

  • Em lactentes com <2 anos de idade, a linfadenopatia mesentérica secundária a alguma doença associada (por exemplo, gastroenterite viral) é a causa mais provável de episódios de intussuscepção. Em crianças mais velhas, a linfadenopatia mesentérica ainda constitui a causa mais provável, mas outras etiologias devem ser consideradas (por exemplo, linfomas intestinais, divertículo de Meckel). Portanto, crianças com ≥6 anos ou com intussuscepção jejunojejunal ou íleo-ileal devem ser avaliadas quanto a uma possível origem maligna.

  • A intussuscepção íleo-ileal também podem ser indicativa de púrpura de Henoch-Schönlein (PHS). A PHS é uma vasculite que afeta pequenas veias e ocorre principalmente em crianças <11 anos de idade.

Divertículo de Meckel

  • Uma projeção em forma de dedo localizada no íleo distal que emerge da borda antimesentérica; geralmente cerca de 40 a 60 cm da válvula ileocecal, com 1 a 10 cm de altura e 2 cm de largura. com.bmj.content.model.assessment.Caption@62a825cd[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Foto intraoperatória de divertículo de MeckelDo acervo de Dr. KuoJen Tsao; usado com permissão [Citation ends].

  • A maioria dos pacientes sintomáticos apresenta essa afecção antes de 2 anos de idade.

  • A prevalência é estimada em até 3%.[9]

  • A obstrução intestinal é uma complicação conhecida e pode ser observada em até 40% de todos os divertículos de Meckel sintomáticos (de acordo com algumas séries).[10][11]

Adenite mesentérica

  • Refere-se à inflamação dos linfonodos mesentéricos. Pode ser um processo agudo ou crônico.

  • Muitas vezes é confundida com outras doenças, como a apendicite; descobriu-se que até 23% dos pacientes submetidos a apendicectomia negativa apresentam adenite mesentérica inespecífica.[12]

  • Um estudo retrospectivo relatou que, comparados a crianças com apendicite, os pacientes com adenite mesentérica têm maior probabilidade de apresentar febre alta (acima de 39 °C) e disúria, e têm menor probabilidade de apresentar dor migratória, vômitos ou sinais abdominais típicos de apendicite no exame físico.[13]

Doença de Hirschsprung

  • Mais comumente diagnosticada no primeiro ano de vida, mas pode manifestar-se posteriormente durante a infância; há uma preponderância ligeiramente superior no sexo masculino.

  • Doença congênita caracterizada por obstrução cólica parcial ou completa associada à ausência de células ganglionares intramurais. Em decorrência da aganglionose, o lúmen é tonicamente contraído, causando uma obstrução funcional. A porção aganglionar do cólon está sempre localizada distalmente, mas o comprimento do segmento varia. com.bmj.content.model.assessment.Caption@59284cfd[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Radiografia abdominal de neonato com padrão fecal anormal e constipação. Os cólons transverso e descendente dilatados são sugestivos de doença de HirschsprungDo acervo de Dr. KuoJen Tsao; usado com permissão [Citation ends].

  • Pode estar associada à síndrome de Down e à neoplasia endócrina múltipla tipo IIA.

Obstrução intestinal

  • A obstrução do intestino grosso ou delgado pode resultar de várias etiologias e ocorrer em qualquer idade. Pode não ocorrer dor abdominal até que a obstrução tenha evoluído para distensão abdominal extensa ou isquemia intestinal. A obstrução intestinal pode mimetizar o íleo paralítico, que geralmente não requer intervenção cirúrgica.

  • A etiologia da obstrução intestinal pode ser congênita ou adquirida. As causas congênitas incluem atresia ou estenose, que se manifestam no período neonato. As causas adquiridas incluem adesões do intestino delgado, hérnias encarceradas ou estranguladas e tumores.

  • Causas congênitas:

    • A atresia ou a estenose duodenal pode causar obstrução completa ou parcial do duodeno resultante de falha na recanalização durante o desenvolvimento. Isso resulta em estenose, com obstrução incompleta do lúmen duodenal (permitindo apenas a passagem parcial de gases e líquidos), ou em atresia, na qual o duodeno termina em fundo cego causando uma obstrução completa verdadeira.

    • A estenose ou atresia jejunoileal é uma obstrução completa ou parcial de qualquer parte do jejuno ou do íleo. Embora incerta, acredita-se que resulte de acidente vascular durante o desenvolvimento. A estenose jejunal ainda pode apresentar continuidade do lúmen intestinal com um lúmen estreitado e uma camada muscular espessada. Há quatro tipos de intestino atrésico, sendo que todos resultam na obstrução completa em razão do lúmen terminado em fundo cego.

    • As hérnias podem ser internas ou externas e congênitas ou adquiridas.

    • A atresia cólica é uma obstrução completa extremamente rara de qualquer parte do cólon, embora geralmente ocorra perto da flexura esplênica. Assim como a atresia jejunoileal, acredita-se que a atresia cólica resulte de um evento vascular.com.bmj.content.model.assessment.Caption@3222e4b7[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Radiografia abdominal exibindo padrão de gases com sinal da dupla bolha consistente com atresia duodenalDo acervo de Dr. KuoJen Tsao; usado com permissão [Citation ends].

    • O íleo meconial é uma importante causa de obstrução intestinal no período neonatal; deve-se suspeitar de fibrose cística como uma doença associada. Também podem haver anormalidades pancreáticas associadas.

    • Os cistos de duplicação ocorrem mais comumente no intestino delgado; eles podem servir como ponto inicial para volvo e intussuscepção e também podem resultar em obstrução. Com os cistos de duplicação duodenal, podem ocorrer úlcera péptica, hemorragia ou perfuração secundárias à mucosa gástrica ectópica.

  • Causas adquiridas:

    • Pode ocorrer em qualquer idade.

    • Os tumores podem ser intraluminais ou extraintestinais.

    • As hérnias podem ser internas ou externas e congênitas ou adquiridas. com.bmj.content.model.assessment.Caption@54b831b6[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Lactente com protuberância na virilha direita consistente com hérnia inguinal encarcerada. A ausência de edema e eritema na pele sobrejacente não descarta a estrangulação do intestino delgadoDo acervo de Dr. KuoJen Tsao; usado com permissão [Citation ends].

    • História de cirurgia ou inflamação intra-abdominal prévia (como enterocolite necrosante) deve levantar suspeita para obstrução adesiva do intestino delgado.

    • Cistos de omento, embora raros, podem estar presentes na obstrução intestinal e ser confundidos com cistos ovarianos na ultrassonografia.

    • Em pacientes com fibrose cística, a obstrução intestinal parcial pode às vezes ser relatada como síndrome da obstrução intestinal distal (SOID) ou síndrome do íleo meconial equivalente. Essa entidade não está relacionada ao mecônio. Ela se refere a uma obstrução do intestino delgado distal causada pelo conteúdo intestinal impactado; geralmente ocorre em adolescentes e adultos com fibrose cística.

Volvo

  • Pode ocorrer em qualquer faixa etária, embora seja mais comum em crianças <1 ano de idade; em pelo menos 60% das crianças, manifesta-se antes de 1 mês de idade.[14] O volvo do intestino médio é o tipo mais comum. O volvo de sigmoide também pode ocorrer.

  • Vômitos verdes (biliosos) são um sintoma básico de obstrução duodenal secundária ao volvo do intestino médio.[14]

  • Má rotação intestinal é um termo usado para abranger todo o espectro de arranjos anatômicos que resultam da rotação incompleta do intestino durante o desenvolvimento embrionário. Só é possível ocorrer volvo de todo o intestino delgado e de parte do cólon quando existe má rotação.

  • Na má rotação, as preocupações patológicas mais significativas são a falta de fixação do intestino na base retroperitoneal e mesentérica do intestino delgado que predispõe os pacientes ao volvo do intestino médio, que ocorre quando o duodeno ou o cólon gira em torno da base mesentérica.

Enterocolite necrosante

  • Doença principalmente de bebês prematuros, particularmente daqueles que pesam menos de 1500 g. A patogênese é multifatorial e não é claramente compreendida, embora condições como isquemia, lesão por reperfusão e patógenos infecciosos possam contribuir de certa maneira.

  • Os sintomas típicos são intolerância alimentar, distensão abdominal e diarreia hemorrágica aos 8 a 10 dias de idade.[15] Outros sinais e sintomas incluem apneia, letargia, desconforto abdominal, eritema na parede abdominal e bradicardia.

Úlcera péptica

  • As úlceras gástricas e duodenais são incomuns na população pediátrica.[16] Quando ocorrem, são classificadas como úlceras pépticas primárias ou secundárias.

  • As úlceras primárias ocorrem sem fatores predisponentes e a localização mais comum é o duodeno ou o canal pilórico. Elas se manifestam com mais frequência em adolescentes e crianças mais velhas com história familiar positiva. Raramente, podem ocorrer úlceras pépticas primárias no primeiro mês de vida, manifestadas com sangramento e possível perfuração. A maioria está localizada no estômago. As úlceras primárias podem estar associadas à Helicobacter pylori.

  • As úlceras secundárias geralmente estão associadas a fatores como estresse, queimaduras, trauma, infecções, hipóxia neonatal, doença crônica e medicamentos ulcerogênicos ou hábitos do estilo de vida (por exemplo, anti-inflamatórios não esteroidais [AINEs], salicilatos, corticosteroides, tabagismo, consumo de cafeína, nicotina ou bebidas alcoólicas). É importante tratar o fator predisponente. Exacerbações e remissões podem durar de semanas a meses.

Doença inflamatória intestinal

  • Esta categoria inclui colite ulcerativa e doença de Crohn.

  • A colite ulcerativa afeta o reto e estende-se em direção proximal. Caracteriza-se por uma inflamação difusa da mucosa cólica e pela evolução recidivante e remitente. A colite ulcerativa é incomum em pessoas com menos de 10 anos de idade.

  • A doença de Crohn pode envolver qualquer parte (ou todas as partes) do trato gastrointestinal, desde a boca até a área perianal. Ao contrário da colite ulcerativa, a doença de Crohn caracteriza-se por lesões descontínuas e segmentares (skip lesion). A inflamação transmural muitas vezes causa fibrose, resultando em obstrução intestinal. Como resultado da inflamação, tratos sinusais também podem perfurar e penetrar na serosa, causando perfurações e fístulas. O pico de início se dá entre 15 e 40 anos.

  • A colite ulcerativa geralmente apresenta diarreia hemorrágica, embora este seja um quadro incomum na doença de Crohn. Ambos os quadros clínicos causam dor abdominal do tipo cólica, anorexia e perda de peso quando se manifestam tardiamente na evolução da doença. Dependendo da localização da doença de Crohn no intestino, ela pode mimetizar outros processos de doenças, como apendicite aguda.

Doença celíaca

  • Doença autoimune sistêmica desencadeada por peptídeos de glúten alimentar encontrados no trigo, centeio, cevada e grãos relacionados.

  • A ativação imunológica no intestino delgado causa atrofia vilosa, hipertrofia das criptas intestinais e aumento do número de linfócitos no epitélio e na lâmina própria. Localmente, essas alterações causam sintomas gastrointestinais e má absorção.

  • A doença celíaca é um distúrbio comum nos EUA e na Europa. Constatou-se uma prevalência relativamente uniforme em muitos países, com soroprevalência global acumulada e prevalência confirmada por biópsia de 1.4% e 0.7%, respectivamente.[17]

  • Os pacientes podem apresentar dor abdominal, cólica ou distensão abdominal recorrente.[18] Outros sintomas comuns incluem distensão abdominal e diarreia. A dermatite herpetiforme, uma erupção cutânea papulovesicular intensamente pruriginosa que afeta as superfícies extensoras dos membros, quase sempre ocorre em associação com a doença celíaca.

Colelitíase/colecistite

  • O termo colelitíase descreve a entidade de cálculos na vesícula biliar (geralmente um achado assintomático ou incidental). A cólica biliar refere-se à clássica descrição de dor intermitente e recorrente no quadrante superior direito que remite sem intervenção. Geralmente é causada pela obstrução intermitente do ducto cístico em razão de colelitíase e da contração de uma vesícula biliar distendida.com.bmj.content.model.assessment.Caption@771df0a1[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Ultrassonografia de vesícula biliar demonstrando colelitíase com sombreamento característicoDo acervo de Dr. KuoJen Tsao; usado com permissão [Citation ends].com.bmj.content.model.assessment.Caption@6cc9151b[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Radiografia abdominal com opacidades no quadrante superior direito consistentes com cálculos biliaresDo acervo de Dr. KuoJen Tsao; usado com permissão [Citation ends].

  • O termo colecistite refere-se à inflamação da vesícula biliar precipitada pela obstrução da bile através do ducto cístico. Os sintomas geralmente não apresentam resolução espontânea, e há achados específicos no diagnóstico por imagem. A colecistite pode ser acalculosa (ausência de cálculos) ou calculosa (presença de cálculos). A coledocolitíase é o termo que descreve a presença de cálculo(s) biliar(es) no ducto colédoco.

Discinesia biliar

  • Caracteriza-se por sintomas de cólica biliar (dor intermitente e recorrente no quadrante superior direito que remite sem intervenção) na ausência de cálculos documentados na vesícula biliar; o diagnóstico deve ser considerado naqueles com sintomas sugestivos de cólica biliar, mas com exames laboratoriais e ultrassonografia negativos na investigação de colelitíase sintomática.

  • Causada pela contração anormal ou alterada da vesícula biliar a qual resulta em cólica biliar. Os pacientes muitas vezes são submetidos a uma investigação abrangente antes de ser diagnosticados com essa entidade; o reconhecimento cada vez maior da doença, com exames abrangentes, tem propiciado diagnósticos mais frequentes em crianças.

Hepatite viral

  • As hepatites virais são do tipo A, B, C, D e E.

  • O vírus da hepatite A permanece como uma etiologia significativa de hepatite viral aguda e icterícia, particularmente em países em desenvolvimento, em pessoas que viajam para esses países e em surtos esporádicos de origem alimentar em países desenvolvidos.

  • O vírus da hepatite B (HBV) frequentemente causa hepatite aguda e é a causa mais comum de hepatite crônica na África e no Extremo Oriente.

  • O vírus da hepatite C (HCV) representa a principal causa de hepatite viral crônica em países desenvolvidos.

  • O vírus da hepatite D é um vírus defectivo que requer a presença da hepatite B para causar uma doença clinicamente identificável.

  • O vírus da hepatite E representa uma causa importante de mortalidade em países em desenvolvimento, especialmente entre gestantes.

Pancreatite aguda

  • Refere-se à inflamação do pâncreas; não implica necessariamente presença de infecção.

  • Geralmente, a pancreatite em crianças ocorre em decorrência de medicamentos, infecção, anomalias anatômicas ou trauma.[19] Corticosteroides, hormônios adrenocorticotrópicos, contraceptivos com estrogênio, azatioprina, asparaginase, tetraciclina, clorotiazidas e ácido valproico podem induzir à pancreatite. As causas congênitas incluem cisto de colédoco que causa pâncreas anormal e drenagem da bile e pancreas divisum. As causas infecciosas incluem parotidite e mononucleose infecciosa.

  • O consumo excessivo de bebidas alcoólicas e cálculos biliares são as causas mais comuns de pancreatite em adultos; essas causas são relativamente menos comuns em crianças, embora ainda ocorram. A pancreatite pediátrica é rara, mas a incidência futura provavelmente aumentará em razão da população cada vez maior de crianças com cálculos biliares. com.bmj.content.model.assessment.Caption@49eb5369[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Tomografia computadorizada (TC) de adolescente do sexo feminino que apresenta dor abdominal na região médio-epigástrica resultante de pancreatite biliar. A grande coleção de fluidos no leito pancreático (seta branca) e a ausência de realce pancreático sugerem necrose liquefativa do pâncreasDo acervo de Dr. KuoJen Tsao; usado com permissão [Citation ends].

Infarto e cistos esplênicos

  • Os cistos são classificados como primários ou secundários (adquiridos). Os cistos primários geralmente são congênitos e apresentam realmente um revestimento epitelial. Oito por cento dos cistos esplênicos são pseudocistos relacionados a infecções, infarto ou trauma.[20] A maioria dos cistos tem diagnóstico incidental, embora alguns pacientes possam apresentar dor abdominal incômoda do lado esquerdo. Em pacientes pediátricos, as massas esplênicas mais comuns são cistos congênitos e/ou adquiridos.[21]com.bmj.content.model.assessment.Caption@5c4bfe63[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Tomografia computadorizada (TC) revelando cisto cheio de líquido dentro do baçoDo acervo de Dr. KuoJen Tsao; usado com permissão [Citation ends].com.bmj.content.model.assessment.Caption@444b95b3[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Foto intraoperatória de grande cisto esplênicoDo acervo de Dr. KuoJen Tsao; usado com permissão [Citation ends].

  • O infarto esplênico ocorre quando há oclusão do suprimento esplênico de sangue. Ele pode afetar o órgão inteiro ou apenas parte do baço, dependendo dos vasos sanguíneos envolvidos. É difícil avaliar a incidência do infarto esplênico.

Trauma abdominal

  • Um estudo prospectivo multicêntrico constatou que o trauma abdominal representou 3% das internações em unidades de trauma pediátricas.[22]

  • Geralmente classificado como penetrante ou contuso. O trauma abdominal contuso sempre deve ser considerado quando a história é vaga ou inconsistente. Fígado, baço e rins são os órgãos intra-abdominais mais afetados no traumatismo contuso. A maioria das lesões contusas no fígado e baço tem manejo não cirúrgico.

  • É importante descartar lesões duodenais e/ou pancreáticas causadas por guidões de bicicleta e/ou socos diretos no abdome. Lesões de vísceras ocas (por exemplo, estômago e intestinos) são mais comuns no traumatismo penetrante.

  • É essencial considerar trauma por abuso infantil/não acidental nessa população de pacientes (por exemplo, chute no abdome).

Geniturinária

Infecção do trato urinário (ITU)

  • A infecção pode surgir em qualquer parte do trato urinário, incluindo uretra, bexiga, ureter e rins. O diagnóstico e o tratamento são essenciais para evitar possíveis efeitos colaterais em longo prazo, incluindo cicatrização dos rins ou do trato urinário e hipertensão.

  • As estimativas da incidência verdadeira de infecção do trato urinário (ITU) dependem das taxas de diagnóstico e investigação. A ITU é mais comum em meninas. As ITUs afetam cerca de 4% e 10% das crianças com 1 ano e 6 anos de idade, respectivamente.[23]

  • As infecções bacterianas são a causa mais comum, particularmente a infecção por Escherichia coli.

Dismenorreia primária

  • A dismenorreia, ou menstruação dolorosa, é uma das doenças ginecológicas mais comuns que afeta as mulheres em idade fértil.[24]

  • A dismenorreia primária caracteriza-se por dor menstrual na ausência de patologia pélvica.

Nefrolitíase

  • Refere-se a cálculos que podem estar situados em qualquer parte do trato geniturinário; a maioria dos cálculos é observada nos rins, e depois na bexiga e no ureter.

  • A maioria dos pacientes apresenta algum fator predisponente, como história familiar de nefrolitíase, dieta de alto risco (por exemplo, consumo excessivo de oxalato), doença crônica (por exemplo, acidose tubular renal).

  • Os cálculos com menos de 5 mm de diâmetro geralmente remitem espontaneamente.

Torção testicular

  • Uma emergência urológica resultante da torção do testículo no cordão espermático, causando uma constrição no suprimento vascular e isquemia urgente e/ou necrose do tecido testicular.[25]com.bmj.content.model.assessment.Caption@608e21ec[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Menino com dor testicular à direita. Testículo edemaciado, sensível e eritematoso causado por torção de apêndice testicular. Os sinais e sintomas clínicos mimetizam os de torção testicularDo acervo de Dr. KuoJen Tsao; usado com permissão [Citation ends].com.bmj.content.model.assessment.Caption@736d468f[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Menino pequeno com testículo esquerdo edemaciado, sensível e eritematoso. Testículo retraído consistente com torção testicularDo acervo de Dr. KuoJen Tsao; usado com permissão [Citation ends].com.bmj.content.model.assessment.Caption@70d60667[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Torção de apêndice testicular resultante em infarto agudoDo acervo de Dr. KuoJen Tsao; usado com permissão [Citation ends].

  • Apresenta uma distribuição bimodal: a torção extravaginal afeta os neonatos no período perinatal, e a torção intravaginal afeta homens de qualquer idade, mas ocorre com mais frequência em adolescentes.[25]

  • A dor por torção de um apêndice testicular pode desenvolver-se de maneira mais gradual (de dias a semanas) e, frequentemente, é localizada (polo superior dos testículos). Além disso, geralmente não há sintomas sistêmicos, como náuseas e vômitos.

Cisto ovariano roto

  • A ruptura de cisto ovariano é rara e pode ocorrer juntamente com uma torção.

  • Os sintomas geralmente ocorrem antes do período esperado de ovulação e podem mimetizar uma gravidez ectópica rota. Surge uma dor causada pela peritonite local secundária à hemorragia.[26][27][28]

Torção ovariana

  • Embora possa afetar mulheres de qualquer idade, ocorre mais comumente nos primeiros anos da fase fértil.[29]

  • Em crianças, a torção do ovário muitas vezes está associada à presença de tumor ovariano, mais comumente um teratoma.

  • O giro ou a torção do ovário compromete o influxo arterial e o refluxo venoso, produzindo isquemia, que, não sendo tratada prontamente, pode afetar a viabilidade do ovário. com.bmj.content.model.assessment.Caption@68a8f3c3[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Foto intraoperatória de massa ovariana manifestada como torção ovarianaDo acervo de Dr. KuoJen Tsao; usado com permissão [Citation ends].com.bmj.content.model.assessment.Caption@79383e7b[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Tomografia computadorizada (TC) de menina revelando torção ovariana. Grande lesão cística pélvica com calcificações (seta branca) consistentes com teratoma ou cisto dermoideDo acervo de Dr. KuoJen Tsao; usado com permissão [Citation ends].

Doença inflamatória pélvica (DIP)

  • Representa um espectro de infecções do trato genital superior que incluem qualquer combinação de endometrite, salpingite, piossalpingite, abscesso tubo-ovariano e peritonite pélvica; geralmente causada por Neisseria gonorrhoeae ou Chlamydia trachomatis e, menos comumente, pela flora vaginal normal, inclusive estreptococos, anaeróbios e bastonetes entéricos Gram-negativos.

  • As adolescentes apresentam maior risco de evoluir para DIP comparadas às mulheres mais velhas.[30] As infecções sexualmente transmissíveis são um fator de risco importante.

  • A DIP em crianças pequenas deve ser motivo de pronta investigação para possível abuso sexual, pois é extremamente rara a ocorrência de DIP na ausência de atividade sexual.

Complicações da gestação

  • Aborto espontâneo e gravidez ectópica devem ser motivos de preocupação em mulheres em idade fértil com dor na parte inferior do abdome, amenorreia e sangramento vaginal.

  • O aborto espontâneo é definido como a perda involuntária e espontânea da gestação antes de completar 22 semanas.[31] A maioria dos abortos espontâneos ocorre no primeiro trimestre.[32]

  • A gravidez ectópica ocorre quando um óvulo fertilizado se implanta e amadurece fora da cavidade endometrial uterina, sendo os locais mais comuns as tubas uterinas (97%), o ovário (3.2%) e o abdome (1.3%).[33] O uso de contraceptivos orais antes dos 16 anos de idade está associado ao aumento do risco de gravidez ectópica.[34] A apresentação clássica inclui dor na parte inferior do abdome, amenorreia e sangramento vaginal. A hemorragia de uma gravidez ectópica rota pode ser fatal.

Pulmonar

Doenças respiratórias primárias, como pneumonia ou empiema, podem se manifestar como dor abdominal na população pediátrica. A presença de pneumonia recorrente em crianças geralmente resulta de determinada susceptibilidade, como distúrbios de imunidade e anormalidades anatômicas, de funcionalidades leucocitárias e ciliares, ou de distúrbios genéticos específicos, como fibrose cística.[35]

Dor abdominal funcional

A dor abdominal funcional também é chamada de dor abdominal inespecífica; a dor geralmente é crônica ou recorrente. A hiperalgesia visceral é o desfecho final de eventos médicos e psicossociais sensibilizadores, com um histórico de predisposição genética.[36] Os transtornos de dor abdominal funcional são classificados de acordo com os critérios de Roma IV, que descrevem dispepsia funcional, síndrome do intestino irritável, enxaqueca abdominal e dor abdominal funcional sem outra especificação.[36][37]

  • Afeta geralmente crianças entre 5 e 14 anos de idade.

  • A prevalência varia de 10% a 30% em amostras de estudantes a 87% em algumas clínicas de gastroenterologia.[38]

  • É comum haver história familiar de distúrbios funcionais (síndrome do intestino irritável, transtorno mental, enxaqueca, ansiedade).

  • Esclarecer o tipo de distúrbio funcional é importante para determinar quais tratamentos provavelmente melhorarão os sintomas.

Dispepsia funcional

  • Definida como um ou mais dos seguintes sintomas incômodos por, pelo menos, 4 dias ao mês: saciedade pós-prandial, saciedade precoce, dor epigástrica ou queimação não associadas à defecação. Após a avaliação adequada, os sintomas não podem ser totalmente explicados por outra doença.[36]

Síndrome do intestino irritável

Três critérios devem ter sido satisfeitos por 2 meses antes do diagnóstico:[36]

  1. Dor abdominal por, pelo menos, 4 dias ao mês, associada a um ou mais dos seguintes critérios:

    • Relacionados à defecação

    • Alteração na frequência de defecação.

    • Alteração no formato das fezes.

  2. Em crianças com constipação, a dor não desaparece com a resolução da constipação.

  3. Após a avaliação adequada, os sintomas não podem ser totalmente explicados por outra doença.

Enxaqueca abdominal

Todos os critérios a seguir devem ser satisfeitos pelo menos 6 meses antes do diagnóstico e, pelo menos, em duas ocasiões:[36]

  1. Episódios paroxísticos de dor abdominal periumbilical, na linha média ou difusa intensa e aguda, que dura pelo menos 1 hora. A dor abdominal deve ser o sintoma mais grave e angustiante.

  2. Episódios com intervalos de semanas ou meses.

  3. A dor é incapacitante e interfere com as atividades normais.

  4. Padrão e sintomas estereotípicos no indivíduo.

  5. Dor associada a 2 ou mais dos seguintes fatores:

    • Anorexia

    • Náuseas

    • Vômitos

    • Cefaleia

    • Fotofobia

    • Palidez.

  6. Após a avaliação adequada, os sintomas não podem ser totalmente explicados por outra doença.

Dor abdominal funcional - sem outra especificação

Devem ser satisfeitos três critérios de diagnóstico pelo menos quatro vezes ao mês, por 2 meses antes do diagnóstico:[36]

  1. Dor abdominal episódica ou constante que não ocorre apenas durante eventos fisiológicos (por exemplo, ao comer, durante a menstruação)

  2. Critérios insuficientes para o diagnóstico de síndrome do intestino irritável, dispepsia funcional ou enxaqueca abdominal.

  3. Após a avaliação adequada, os sintomas não podem ser totalmente explicados por outra doença.

Características de alarme em crianças com dor abdominal crônica, que pode indicar causa orgânica ou relacionada à motilidade, em vez de uma causa funcional, incluem:[36]

  • História familiar de doença inflamatória intestinal, doença celíaca ou úlcera péptica

  • Dor persistente no quadrante inferior direito ou no quadrante superior direito

  • Disfagia

  • Odinofagia

  • Vômito persistente

  • Hemorragia digestiva

  • Diarreia noturna

  • Artrite

  • Doença perirretal

  • Perda de peso involuntária

  • Desaceleração do crescimento linear

  • Puberdade tardia

  • Febre não explicada.

O uso deste conteúdo está sujeito aos nossos avisos legais