Em um mundo ideal, no qual a tomada de decisão compartilhada é praticada impunemente, os profissionais de saúde precisam ter — na ponta dos dedos — meios de avaliar e entender (além de acessar) as melhores evidências disponíveis sobre os principais quadros clínicos com os quais se deparam diariamente.

Infelizmente, para muitos médicos este conceito sublime e valioso frequentemente perde a razão de ser logo no início da prática profissional porque as primeiras experiências de uma pessoa com as evidências são:

  • Tédio: A maioria de nós já assistiu a palestras de epidemiologia aparentemente intermináveis sobre avaliação crítica e ponderou: “É assim que se sente alguém sob sedação da consciência?”
  • Confusão: Aquele complexo curso de estatística da graduação no qual você mal passou e que tem pouca semelhança com qualquer coisa remotamente prática.
  • Frustração: Existem centenas de diretrizes de prática clínica “baseadas em evidências”, que às vezes são mais longas que o clássico Guerra e Paz; você ouve que, para manter-se atualizado com a literatura médica, precisa ler 21 horas por dia e você nunca teve essa quantidade de tempo livre em um mês, quanto mais em um único dia!

Dadas essas experiências, muitas vezes a única solução realista para o profissional de saúde da linha de frente é encontrar fontes seguras nas quais possa confiar e que apresentem evidências que sejam:

  1. Sucintas– qualquer coisa além de algumas centenas de palavras provavelmente é grande demais.
  2. Relevantes– abordam as dezenas de questões médicas comuns vistas diariamente na atenção primária.
  3. Específicas– apresentam os benefícios e danos de maneiras semelhantes. As ferramentas de riscos/benefícios/danos precisam ser práticas e permitir uma estimativa dos riscos iniciais, dos potenciais benefícios e danos associados ao tratamento e também alguma ideia do custo e das inconveniências associadas a esses tratamentos.
  4. Isentas– sejam tão livres de influências financeiras e ideológicas (teorias mecanicistas) quanto possível. Parece estranho mas, idealmente, os autores não deveriam se importar com o que as evidências mostram.
  5. Envolventes– apresentadas de maneira interessante – prática, mas também com humor e uma dose de ceticismo saudável.

Depois você mistura os atributos acima com alguns princípios de bom senso, como:

  1. Um novo tratamento raramente é muito melhor que o que já temos, se for melhor.
  2. Só realize um teste se o resultado puder modificar o que você faria.
  3. A menos que o quadro clínico seja considerado um risco de vida imediato, comece com doses baixas.
  4. Você não pode fazer um paciente assintomático se sentir melhor.
  5. Quando o risco inicial for baixo, reduzir o risco raramente traz qualquer ganho significativo.
  6. Quase nunca você consegue reduzir o risco a zero.
  7. Atividade física, nutrição e não fumar quase sempre são mais eficazes do que quaisquer tratamentos que possamos oferecer.
  8. No fim, todos estaremos mortos.

Usando muitos dos princípios e conceitos acima, ao longo dos anos desenvolvemos ao uma série de “frases de efeito”. Nosso objetivo global sempre foi o de tornar as evidências acessíveis, compreensíveis, interativas e divertidas. Entre os exemplos, temos:

  • Ferramentas para a Prática Profissional: Um artigo quinzenal propositalmente curto (300 palavras), resumindo as evidências médicas e com foco nas questões atuais e nas informações que possam modificar a prática – >130 artigos até hoje.
  • Best Science (BS) Medicine Podcast: Uma série de podcasts de 30 minutos que apresentam uma discussão entre um médico de família e um farmacêutico clínico a respeito das melhores evidências disponíveis, girando em torno de muitos tópicos pertinentes à prática geral (por exemplo, diabetes, pneumonia, depressão), várias séries sobre temas como polimedicação, nutrição, além de um olhar mensal sobre novos estudos. Todos esses tópicos são discutidos com ceticismo saudável e tons de humor ímpares. O podcast BS Medicine, de acordo com a plataforma iTunes, está entre os 10-20 principais podcasts médicos na maioria dos países e é um dos principais (se não for o principal) podcasts de clínica geral no mundo – >260 podcasts até hoje.
  • Calculadora de Risco/Benefício absoluto de DCV: Uma calculadora interativa e individualizada de risco cardiovascular que fornece uma estimativa absoluta (%) da chance de uma pessoa ter um evento cardiovascular ao longo de um período de tempo específico e uma ideia dos potenciais benefícios e danos do tratamento. São apresentadas as 3 principais calculadoras do risco – Framingham, QRISK2 e ASCVD.
  • Vídeos Musicais Educativos: Um de nós (alguém, obviamente, com muito tempo sobrando) usa a música popular para abordar os conceitos de tomada de decisão compartilhada, avaliação crítica, números relativos ao risco de DCV, polimedicação, nutrição, escolhas com sabedoria, sobrediagnósticos – 9 vídeos no total.
  • Como Avaliar Criticamente um ECRC em 10 minutos: Um e-Book interativo gratuito que descreve as etapas envolvidas em uma avaliação crítica completa, porém rápida, de um ensaio clínico randomizado e controlado (ECRC).

Muitos médicos consideram uma tarefa hercúlea a incorporação das evidências à sua prática profissional. No entanto, existem muitos grupos e recursos disponíveis para médicos ocupados, os quais fornecem úteis resumos de evidências e sinopses. Munidos desses recursos e de uma compreensão básica de alguns princípios das evidências, a prática baseada em evidências está ao alcance de todos — e pode, na verdade, ser empoderadora e divertida!

Autores: James McCormack e Mike Allan

James McCormack é farmacêutico e professor na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da University of British Columbia e trabalha na tradução e disseminação do conhecimento de maneiras ligeiramente inteligentes e inovadoras.
Mike Allan é médico de família, professor e Diretor de MBE no Departamento de Medicina de Família na University of Alberta. Com o Alberta College of Family Physicians, ele trabalha em uma série de projetos relacionados a evidências e tradução de conhecimentos.

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