No advento do susto do Zika, fica claro que a necessidade de evidências e o sensacionalismo são difíceis de equilibrar e, devido à pressão da mídia, muitos governos e várias entidades reagiram com pressa e, provavelmente, com muito pouco tempo para analisar suas recomendações. Um caso semelhante foi observado com o surto de Ebola. A comunidade global observou e sentiu as consequências: medo e confusão ao manejar e controlar uma doença que tem evidências e base de conhecimento limitadas e falta de antecedentes históricos para dar suporte às ações adotadas.

No entanto, muitas vezes temos as evidências mais ou menos prontamente disponíveis para responder às necessidades de informação de saúde e às solicitações dos formuladores de políticas. Infelizmente, na maioria das vezes, essas informações são muito complexas e difíceis para se determinar o que é correto e o que é simplesmente crença popular. A pletora de publicações torna difícil peneirar e resumir, de modo que haja um processo adequado de tradução das evidências geradas pelos pesquisadores para a política e a prática.

Por isso, devemos nos esforçar para atender às necessidades do público-alvo. De acordo com Wickremasinghe et al, existem pelo menos seis grupos de audiência primários—profissionais, técnicos, pesquisadores, acadêmicos, defensores e formuladores de políticas. Para atender às diversas necessidades de conhecimento desses grupos com êxito, é necessário um planejamento colaborativo. As quatro características essenciais a serem consideradas ao planejar uma saída—Legibilidade, Relevância, Rigor e Recursos.

 As barreiras que precisam ser superadas para a implementação de decisões baseadas em evidências em políticas e práticas são resumidas por Andermann et al como:

  1. Perder a janela de oportunidade – se as evidências necessárias não estiverem disponíveis (ou os recursos/infraestrutura não existentes) no momento em que decisões importantes precisam ser tomadas, então a chance de ações baseadas em evidências é perdida
  2. Lacunas de conhecimento e incertezas
  3. Controvérsia, evidência irrelevante e conflitante – tornando confuso qual caminho seguir e aumentando a possibilidade de decisões incorretas ou não baseadas em evidências sendo tomadas
  4. Interesses e conflitos de interesses

Tendo isso em mente, as evidências corretas devem ser oportunas e prontamente disponíveis, no formato apropriado e linguagem adequada, mostrando como são relevantes, como se relacionam com outras políticas de saúde e resultados esperados, bem como possíveis consequências, se não consideradas. Além disso, como Andermann et al destaca, devemos levar em conta possíveis interesses de outros pesquisadores e entidades, resultando em conflito de interesses afetando os resultados finais desejados. Andermann et al usou as palavras “conhecimento político”, e está certo, é uma habilidade que muitas vezes não temos como pesquisadores.

Autor: Van Charles Lansingh

Van Charles Lansingh trabalhou na América Latina, América do Norte, Sudeste Asiático e no Pacífico. Ele faz parte do Advisory Panel of the Ophthalmic News & Education (O.N.E.™) Network internacional da American Academy of Ophthalmology (AAO) e do International Council of Ophthalmology (ICO) e é membro do Grupo de Especialistas da OMS (Organização Mundial da Saúde)/OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) desde maio de 2006.

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