O termo medicina baseada em evidências (MBE, ou EBM: evidence-based medicine) foi cunhado nos anos 1990 com o objetivo de promover a maior integração das evidências com a experiência clínica e os valores do paciente na tomada de decisão médica. A MBE desde então floresceu em um campo interdisciplinar, sendo adotada na medicina, na enfermagem, nas áreas associadas `à saúde, nas políticas de saúde e na pesquisa biomédica e em saúde. O que começou inicialmente como MBE, evoluiu para a prática baseada em evidências (EBP, evidence-based practice), prática clínica baseada em evidências (EBCP, evidence based clinical practice) e assistência médica baseada em evidências (EBHC, evidence-based health care). A última década testemunhou a disciplina ser incorporada como uma unidade básica em muitos cursos de medicina, enfermagem e ciências da saúde.

Como uma pessoa envolvida no ensino da MBE para estudantes de medicina por mais de uma década, sempre fui curioso para identificar novas estratégias que possam melhorar a experiência de aprendizado do aluno. Tradicionalmente, a transferência de conhecimento no setor terciário tem sido de mão única, com as aulas sendo um método eficaz de disseminação de informações para um grande público. No entanto, o treinamento em medicina não é simplesmente um caso de retenção e regurgitamento de informações. As habilidades clínicas, o profissionalismo, o pensamento crítico e a comunicação são apenas algumas das competências que os alunos precisam obter para complementar seu conhecimento científico.

Diferentes estratégias de ensino têm sido desenvolvidas e implementadas para acomodar o ensino dessas diferentes competências. Atividades de aprendizagem baseada em problemas (PBL, problem-based learning) têm sido implementadas para incentivar os alunos a desenvolverem suas habilidades de raciocínio crítico ao mesmo tempo em que participam de um ambiente de aprendizado em pequenos grupos e aumentam o seu conhecimento dos conteúdos. A aprendizagem baseada em trabalho pode ser usada para desenvolver a comunicação e a interação de um aluno com os pacientes. Do mesmo modo, simuladores ajudam os alunos a desenvolverem habilidades clínicas. E quanto à MBE?

Qual é o melhor método de ensinar MBE? Surpreendentemente, não existe uma grande base de evidências para informar os educadores sobre a melhor forma de ensinar a MBE para os estudantes – seja em um curso de pós-graduação ou de graduação. No nível da pós-graduação, é aparente que ensinar a MBE para alunos de pós-graduação em um formato que seja clinicamente integrado tem-se demonstrado com capacidade para aumentar o conhecimento, as habilidades, as atitudes e melhorar o comportamento. Qualquer método de ensino da MBE para alunos de graduação em medicina aumenta a sua competência em MBE. Curiosamente, a evidência atual sugere que nenhuma intervenção educacional única parece ser melhor do que qualquer outra em alcançar altas taxas de competência do aluno –seja em sala de aula, PBL, online ou integrada à clínica.

Ao longo da última década tem havido uma tendência crescente dentro da literatura médica para se adotar uma abordagem de ensino do tipo aprendizagem mista. Como o nome sugere, esta forma de educação visa misturar várias estratégias de ensino para acomodar diferentes estilos de aprendizagem dos alunos. Recentemente concluímos um ensaio clínico randomizado e controlado (ECRC) que comparou a aprendizagem mista da MBE com a aprendizagem didática tradicional em alunos de medicina. O componente misto incluiu aspectos online, face a face e integrados à clínica. Os resultados foram surpreendentes. Nenhuma diferença na competência do aluno foi observada entre os métodos de ensino, mas um nível maior de autoeficácia foi aparente no grupo que recebeu a abordagem de aprendizagem mista. Também observamos uma preferência significativa dos alunos pelo ensino da MBE fornecido via uma abordagem de aprendizagem mista; seu raciocínio é que ela preenchia a lacuna entre a teoria e a prática. Ficou claro que os alunos valorizaram a técnica de aprendizagem mista, mas a que preço? Vale a pena mudar para um estilo de ensino baseado na aprendizagem mista? A pesquisa no campo do ensino da medicina tradicionalmente tem tido como foco principal a determinação da eficácia de uma intervenção nos resultados da aprendizagem. Contudo, poucos estudos têm examinado o custo e o valor das diferentes estratégias de aprendizagem. Por exemplo, o que você recomendaria se a sua nova intervenção educacional fosse associada a maiores competências do aluno do que o estilo de ensino anterior, mas duplicasse o custo? Como parte do estudo que examinou os efeitos da aprendizagem mista em MBE, também conduzimos uma análise de custo-efetividade.

Ela demonstrou que os custos diminuíram 24% com o uso de um modelo de aprendizagem mista, em comparação com o ensino didático. Então, o que aprendemos com a nossa experiência? A aprendizagem mista para a MBE não tem qualquer impacto na competência do aluno, mas os alunos dão mais valor a ela do que ao ensino didático, além de ela custar menos. Esta é a evidência definitiva de que precisamos para responder à pergunta de qual é a melhor forma de se ensinar MBE? Talvez não, mas pelo menos estamos construindo uma base de evidências para informar nossos professores e lhes proporcionar uma oportunidade para integrar as melhores evidências (junto com as preferências do aluno) ao elaborar e implementar seus cursos sobre MBE. Se vamos ensinar os benefícios da MBE para um público mais amplo, então certamente também devemos praticar o que pregamos no cenário educacional.

Autor: Dragan Ilic

Professor Associado Dragan Ilic É o chefe da unidade de Pesquisa e Qualidade do Ensino Médico (MERQ) na Escola de Saúde Pública e Medicina Preventiva, Monash University. Dragan coordena o programa de Prática Clínica Baseada em Evidências (EBCP) fornecido na graduação de Bacharel em Medicina. Também é coordenador de curso das graduações de Bacharel em Ciência da Saúde e Mestrado em Saúde Pública (online). Dragan tem um grande interesse pela pesquisa sobre o ensino da medicina baseada em evidências e educação de profissionais de saúde. Seus interesses de pesquisa incluem o desenvolvimento, implementação e avaliação de novas estratégias educacionais, avaliação, educação interprofissional e análise econômica. Dragan é membro do Curriculum Committee da International Society of Evidence Based Health Care (ISEBHC). Ele também é um membro fundador da Society for Cost and Value in Medical Education.

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